O pecado

Correia da Fonseca

Para o governo ou para área do governo próxima há uma nomeação, e a televisão dá a notícia como lhe cumpre e aliás dela se espera. E é frequente, tanto e de tal modo que já um pouco se assemelha a uma rotina, que nos seja dito, para lá de dados biográficos sumários, que o recém-nomeado é amigo de alguém já situado na zona do governo, porventura do primeiro-ministro, talvez de outro membro do gabinete. Não é raro, naturalmente, nem poderia sê-lo, que sejam dados outros elementos biográficos ou afins, mas a informação complementar de uma amizade é curiosa porque pode sugerir uma espécie de cumplicidade possível ou até já cumprida. Talvez pior: pode sugerir que essa eventual cumplicidade é que explica a nomeação anunciada, e não presumíveis méritos e adequação às funções que o nomeado haverá de cumprir. Por isso mesmo é que, diante da informação assim prestada, o telespectador precavido tem o cuidado de notar qual o canal que assim o está a informar, tão atento a amizades, porque bem se sabe que, sendo todos os canais parecidos entre si, é certo que não são exactamente iguais. Será então, porventura, o tempo de notar quem manda no canal prestador da notícia, pois sendo todos eles, os canais, um pouco parecidos entre si designadamente quanto a certos aspectos, é um facto que não são exactamente iguais. Como aliás se sabe.

Mas de quem?

Assim, em consequência desta curiosa atenção televisiva às amizades não de todos mas de alguns, designadamente de cidadãos que passam a situar-se na área do poder, acontece que a amizade surge à percepção dos telespectadores como qualquer coisa de inconveniente e suspeito, em desarmonia com o sentimento geral e antigo que encara a amizade como uma virtude, um elemento precioso da panóplia de sentimentos que caracteriza os humanos; a amizade quase surge então como um pecado, um factor prenunciador de uma espectável fragilidade que pode gerar consequências, um pré-sintoma de descrédito. E, sabendo nós, cidadãos telespectadores, o que já podemos ir sabendo pelo preço de muitos anos de cidadania e atenção, é natural que sejamos tentados a «ler» a informação implícita na menção da amizade. À margem desse exercício, porém, talvez se justifique que nos lembremos de que a tendencial transformação da amizade, que é uma boa coisa, num factor de fragilidade de que seria bom desembaraçarmo-nos, tem qualquer coisa de perturbante, parece um caso a incluir no interminável inventário da chamada «inversão de valores». Da desejável situação de confiança que a gestão pública deveria recomendar, passa-se a um clima de suspeita por obra e graça da maneira como a telenotícia nos é dada. Será talvez então a altura de nos lembrarmos de que ela, a televisão, sabe como mais ninguém manejar a notícia que nos vai dando. Também ela amiga. Só que nem sempre sabemos de quem.




Mais artigos de: Argumentos

A aceleração do mundo virtual

O corte violento na vida social provocado pela pandemia colocou a comunicação digital no centro das nossas vidas com as limitações de acesso impostas pela capacidade económica e pelas condições de acesso locais. O uso intensivo das redes sociais, destruindo distanciações, dá um sentimento de...