A aceleração do mundo virtual
A luta continua com os desafios anteriores e os novos que irão emergir
O corte violento na vida social provocado pela pandemia colocou a comunicação digital no centro das nossas vidas com as limitações de acesso impostas pela capacidade económica e pelas condições de acesso locais. O uso intensivo das redes sociais, destruindo distanciações, dá um sentimento de liberdade em que as únicas fronteiras são as impostas pelo algoritmo, o que, pelo estado de excepção, por vezes até faz esquecer que o algoritmo tem a moral do pensamento dominante.
Uma das áreas em que a comunicação virtual mais foi impulsionada foi a cultural. Os tempos vazios da vida em confinamento foi invadido por uma oferta digitalizada com um volume insuspeitado. Despejaram-se e despejam-se conteúdos em streaming como se não houvesse amanhã. Uma explosão a que está subjacente um louvável princípio de solidariedade, que coloca algumas questões que devem ser equacionadas.
Nas áreas do espectáculo, se as diversas plataformas de distribuição digital de cinema já se faziam sentir de forma sensível na distribuição cinematográfica, com a eliminação das salas de cinema, há que pensar que repercussões se farão sentir com as exibições no ecrã do computador das artes do espectáculo, em que o encontro entre espectadores e actores é momento único e definidor. Alarmante é o reducionismo com que muitos desses espectáculos estão a ser difundidos.
Se a exibição de filmes com a limitação da dimensão dos ecrãs merece polémica, o que dizer de um espectáculo teatral que deve ser o resultado de um trabalho árduo entre o encenador e os actores? Tens custos acrescidos, o que não é de somenos num tempo em que muita da actividade cultural é medida pelo seu valor de mercado, que não conhece outra hierarquia que não seja a do que é vendável e rentável.
Outras áreas culturais são menos sensíveis a essas questões. Nas literárias não há diferenças significativas entre a leitura física e a digital. Diferente é a situação das artes visuais e dos museus. A transposição para o espaço virtual é uma réplica do que acontece no espaço físico de um museu ou de uma galeria. Ver fisicamente a Guernica de Picasso ou AsMeninas de Velásquez no espaço de um museu não é substituível pela sua visão digital, como não o é na suas reproduções em livro ou plaquete, por mais alta que seja a sua definição.
Mas se a visão digital que não consegue mostrar em todo o seu esplendor essas obras tem a potencialidade de incorporar uma quantidade de informação, de estabelecer uma série de hiperligações a outros documentos textuais e gráficos, não acessíveis a um espectador mesmo numa visita guiada.
O risco potencial que a sobredigitalização actual tem para as áreas culturais é que o que está a suceder no cinema alastre para as artes do espectáculo aumentando as condições precárias que hoje vivem. Em relação aos museus que acentuem a rarefacção dramática das equipas dos museus com o risco sério de inviabilizar o serviço público que prestam, se não forem tomadas medidas urgentes e robustas. As áreas culturais são todas dependentes da fruição pública, colectiva do seu trabalho.
O Ministério da Cultura tem um consistente padrão errático e voluntarista com a progressiva demissão do Estado em favor do mercado para todas as áreas culturais. O programa Revive soma e segue mesmo neste tempo de excepção e a institucionalização de uma plataforma de encontro entre artistas e financiadores, Portugal Entra em Cena, que privilegia projectos comerciais, são a sua demonstração. Um quadro inquietante em que há que estar atento a tudo o que há de positivo e também de negativo nos efeitos da digitalização no universo da cultura, mais evidente no que actualmente se vive com a fragmentação da vida social que as restrições impõem que poderão ter prolongamentos no futuro. Uma certeza, a luta continua com os desafios anteriores e os novos que irão emergir.