Na Alameda
Poderíamos imaginar a direita a esfregar as mãos de contente: desta vez, os milhares de trabalhadores que a CGTP anualmente convoca para desfilarem avenida de Almirante Reis acima até à Alameda de D. Afonso Henriques e para durante horas ocuparem o seu relvado em clima de festa, de fraternidade e de afirmação política, não o poderiam fazer: as regras de confinamento e de distanciamento social em vigor não iriam permiti-lo. Uma vez mais, porém, as espectativas da direita viram-se frustradas, e foram as imagens da televisão que cabalmente o demonstraram: lá vimos, nos ecrãs dos nossos televisores, o relvado da Alameda preenchido com a gente da Intersindical organizada de uma forma impressionantemente organizada, cada manifestante guardando em relação aos camaradas mais próximos as distâncias recomendadas numa espécie de ocupação pacífica e saudável, numa impressionante demonstração de saber fazer e decisão de fazer a despeito das dificuldades encontradas e/ou suscitadas. Era quase, perante a dificuldade surgida circunstancialmente, uma exemplificação concreta das estrofes do hino da CGTP: «camaradas, lutemos unidos / porque é nossa a vitória final».
Um dia
Captada lá do alto, em «plongé», com os manifestantes a ocuparem enorme parte do relvado se não todo ele, a imagem era sobretudo uma evidência de como aquele punhadão de militantes não apenas determinados mas também organizados afirmava a sua vitória. Mais tarde surgiria na televisão, como minúscula objecção, a queixinha de que a vinda de uns milhares de manifestantes provenientes da margem sul do Tejo teria transgredido a ocasional proibição de trânsito entre concelhos. Era a ridícula desforra de quem se via batido pelos acontecimentos concretos e pela justa resolução dos que se recusaram a aceitar a repressão do direito a manifestarem determinação e sentido de unidade. Bem se sabe que essa determinação é o que mais dói à direita de que a televisão é muitas vezes diligente porta-voz, mas há factos com que ela, coitada, pouco mais pode fazer que conformar-se, e um deles é a função da CGTP de unir e organizar os trabalhadores. Para que, como prevê o seu hino, um dia seja sua a vitória final.