Ventura, porventura

Correia da Fonseca

André Ventura é, como decerto toda a gente sabe, líder e presidente do Chega, partido que é representado na Assembleia da República por um único deputado que é precisamente André Ventura. Nessa qualidade, Ventura usou da palavra na recente sessão evocativa do 25 de Abril, e é minimamente justo dizer que a sua intervenção foi esclarecedora sob diversos aspectos. Um deles foi o de documentar a ilimitada extensão das liberdades de opinião e de expressão que podem caracterizar, e ainda bem, uma intervenção na A.R. Outro foi a evidência da posição política de Ventura que ali mesmo, na que é chamada Casa da Democracia, revelou em alto e bom som que esta democracia não lhe serve, que nem sequer esta república directamente resultante de Abril lhe serve, e por isso aspira ao que designa por uma Quarta República, forçosamente se presumindo que nesta contagem de repúblicas se inclua a que teve o dr. Salazar ao comando da dura repressão política que lhe assegurava a manutenção no poder. Não se tratou, entenda-se, de um claro apelo a um golpe de estado que viesse a impor ao país a tal Quarta por que pelos vistos Ventura anseia, mas não andou tão longe disso quanto seria desejável sobretudo no âmbito de uma sessão parlamentar que evocava a conquista da liberdade.

A aposta

Ventura não preconizou claramente, pois, a imediata destruição desta República em que vivemos, e em consequência a supressão de todas ou apenas algumas das liberdades que a enformam. Mas exprimiu sem margem para dúvidas o seu desconforto com esta nossa República de que estará supersaciado e farto, enfartamento de que de resto a designação do seu partido dá claro testemunho, e não será absurdo vislumbrar por detrás das suas palavras o sonho de um projecto. Fosse o Chega muito mais que uma curiosidade política sem previsíveis consequências e seria possível que cidadãos atentos e precavidos se preocupassem. Mas a dimensão do Chega é limitada pela dimensão do próprio André Ventura, que é exígua e, tudo o indica, está condenada a ser exígua até ao momento em que se extinga. Ainda assim, porém, convirá não incorrer na imprudência de subestimar demasiado a probabilidade de uma forma de demagogia primária, implantada em intervenções atrevidas, conseguir algum resultado como perturbador da generalizada lucidez. É nessa probabilidade que, decerto, Ventura aposta. Não teremos de esperar muito tempo até que saibamos o resultado da aposta.




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