Rui Filipe, um pintor em que a vida está sempre presente
Rui Filipe é um dos grandes pintores do neo-realismo e das artes visuais nacionais
Rui Filipe, como muitos outros pintores de gerações anteriores aos anos 80, não tem tido o relevo que a sua obra merece. Embora esteja representado nas colecções do Museu Nacional de Arte de Moçambique (Maputo) – onde tinha nascido em 1928, na Beira –, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Museu do Neo-Realismo e em várias colecções privadas, o conjunto da sua obra nunca tinha sido objecto de uma exposição representativa de um vasto e longo trabalho pictórico que realizou enquanto desenvolveu trabalho gráfico em várias agências de publicidade até que, em 1982, consegue dedicar-se exclusivamente à pintura. Essa lacuna é agora reparada numa exposição antológica no Museu do Neo-Realismo, organizada por Paula Loura Batista.
Na base dessa exposição está um conjunto de obras doadas pelos herdeiros de Rui Filipe ao Museu do Neo-Realismo, juntamente com um vasto espólio documental, juntamente com outras obras oriundas de outras colecções.
Rui Filipe iniciou o seu percurso artístico em Moçambique, estudou em Lisboa com Domingos Rebelo e Dórdio Gomes. Vai para Paris, Academia de Grande Chaumière, e Londres, Slade School, onde frequenta o curso de escultura. Todas essas experiências, bem diversas nos vários géneros de artes visuais, reflectem-se numa obra pictórica densa em que os saberes adquiridos na prática escultórica refletem-se claramente na sua pintura tanto nas paisagens como nas personagens quase imateriais mas bem reais, marcadas por um profundo humanismo que o faz inscrever no neo-realismo, na preocupação pelas questões sociais que nunca abandonou, num empenhamento pela melhoria das condições de vida das populações que via como essenciais para a melhoria das condições de trabalho dos artistas, não dissociando uma das outras e que é uma preocupação sempre presente na sua obra.
Na sua pintura, a articulação entre os diversos planos destacam os volumes dos casarios e das personagens das paisagens em que se inscrevem. Cézanne, pintor que muito admirava, se o influencia na organização dos espaços adquire na densidade da sua pintura, no entrecruzamento entre os primeiros planos e os planos de fundo, nas tonalidades sombrias dominantes, nos contornos negros das formas, nas explorações informalistas que gradualmente foi experimentando, não desaparece na estrutura das formas ortogonais preponderantes mas que quase ficam ocultadas pelo poderoso jogo das diagonais dos outros planos que as cruzam e que fazem de Rui Filipe um pintor de grande originalidade.
Rui Filipe, um dos grandes pintores do neo-realismo e das artes visuais nacionais, é resgatado a um quase esquecimento a que tinha sido remetido, no que infelizmente não é caso único no panorama das artes visuais portuguesas, por esta exposição antológica que o Museu do Neo-Realismo organizou, em linha com o excelente trabalho que tem realizado. Uma exposição que pode ser visitada, para muitos será surpreendente, até 24 de Maio.