A infecção
Um fantasma percorre a Europa, o Mundo, e, diversamente do que nestes termos anunciava o Manifesto de Marx e Engels no ano já muito distante de 1848, não é o fantasma do comunismo: é um vírus, coronavírus de seu nome, suscitador de uma doença designada por Covid-19. Como já toda a gente sabe, a Covid-19 arrancou da China para uma aparente (e sinistra) conquista do mundo, chegou à Europa, às Américas do Norte e do Sul, por toda a parte vem semeando o medo. E, como seria inevitável, «ocupou» as televisões, os seus noticiários e também programas que lhe são especialmente dedicados. Sempre seria adequado e justo que as televisões dedicassem a maior atenção à doença e ao seu agente fautor mas, além dessa justeza, acontece, como bem se sabe, que desastres, desgraças e infelicidades várias são um muito estimado material de trabalho para as operadoras de TV. De onde não apenas o muito tempo que à Covid-19 justificadamente lhe dedicam como o tom quase entusiasmado que por vezes é usado. O quase apreço que os diversos momentos noticiosos dedicam ao vírus é tal que um dos canais adoptou a sua imagem em enorme ampliação como fundo para um dos seus serviços de notícias. Como quem promove uma figura pública ao estatuto de vedetariato.
Em tom de alarme
Neste quadro, bem se pode dizer que também a própria televisão surgiu infectada pelo coronavírus com sintomas evidentes e públicos que provavelmente tenderão a aligeirar-se com o decurso dos dias. Ainda assim, porém, num tempo em que a tomada de precauções é obviamente recomendada mas a menor proximidade ao pânico não o é, o tom em muitos momentos adoptado em telenoticiários e programas «ad hoc» surgiu como claramente contraindicado. Ao nosso país já chegaram casos, outros virão, talvez alguma dose de receio reforce a prudência, mas o pânico não ajuda nem mesmo que em pequenas doses. Ora, o tom adoptado por alguns apresentadores de noticiários, sobretudo nos dias de chegada das primeiras informações preocupantes, poderia suscitar tudo menos serenidade e optimismo. Aliás, mesmo em declarações de um ou outro responsável público foi possível encontrar um acento de grande preocupação completamente compreensível mas que, na circunstância, mais valera omitir: o medo em doses pesadas não tem um efeito antiviral e tende a envenenar o quotidiano. Cada cidadão já tendo decerto motivos bastantes para receios e inquietações de diversa índole, não é adequado que a TV se sirva da Covid-19 para, podendo talvez reforçar audiências, ampliar a nossa aliás justificada preocupação.