A imunidade (do) capital

Demétrio Alves

As empresas cotadas na Bolsa de Lisboa distribuíram cerca de 1900 milhões aos accionistas

Apesar das cinzentas previsões económicas difundidas nestes tempos de orçamentos do Estado e da União Europeia, quando o discurso da restrição e dos cortes é repetido ad nauseum, quem parece imune são os grupos dominantes da economia e da bolsa portuguesas. Nem o pandémico COVID-19 os perturba na sua caminhada de olhos fixados nos dividendos.

A remuneração accionista engorda pelo segundo ano consecutivo, com as cotadas na Bolsa de Lisboa a distribuir cerca de 1 900 milhões de euros aos accionistas, evidenciando um aumento anual de 170 milhões de euros.

No pódio estão a EDP, que distribui 677 milhões, a Portucel (Navigator) que pula para a segunda posição (310 milhões) e a Galp Energia (287 milhões), mantendo a petrolífera o objectivo de aumentar anualmente os dividendos distribuídos em 20%!

Também a Cofina, a Corticeira Amorim, a Altri, a Media Capital, a NOS, os CTT e a Sonae aumentam o dividendo concedido aos capitalistas e, no caso das duas primeiras, o valor da remuneração é duplicado.

Os bancos não entram nesta corrida porque, entretanto, vivem, boa parte deles, às custas do Estado, ou seja, dos portugueses.

A EDP encerrou a sessão bolsista a 19 de Fevereiro com a mais alta cotação de sempre, com o valor acionista de 18 mil milhões de euros; a segunda empresa mais rica da bolsa lusa é a EDP Renováveis, logo seguida da Galp Energia.

Estes empórios de raiz portuguesa centrados na área energética, embora pequenos face aos gigantes mundiais, são, de facto, organizações financeiras com lucros fabulosos que foram privatizados porque, dizia-se, «davam prejuízo público e determinavam preços muito altos para os utentes/consumidores»! Vivem dos e para os lucros e, diga-se, também de rendas oportunistas e excessivas permitidas pelos governos do PSD, CDS e PS a estes monopólios privados.

Trata-se de empresas-vector determinantes para a transição energética em curso movida pelo neoliberalismo, num processo de destruição criativa em que o capital deposita esperanças para sair do ciclo vicioso de crises cada vez mais frequentes (também será do aquecimento global?). Esta «quarta revolução», alavancada em novas tecnologias e, sobretudo, baseada na desregulamentação laboral, vive uma nova fase de exploração dos recursos naturais à escala planetária.

O vírus capitalista, que tem como material genético as coroas produzidas pelo labor humano, nunca está quieto nem satisfeito. Entre nós, não obstante a citada governança bolsista, já se diz que «as empresas portuguesas estão menos atractivas na remuneração dos acionistas» e que, «num ano em que a nível europeu se espera um valor recorde de pagamento de dividendos», Portugal «cai para quinto lugar na atractividade».

O problema, dizem, é do dividend yield, área em que a Rússia é campeã, segundo o ranking da Allianz Global Investors.

É urgente encontrar uma vacina, esta sim para salvar o planeta.




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