Olhar de frente os problemas

Rui Fernandes

Adiar a resolução de problemas só aumenta a sua dimensão

Estreita-se rapidamente a margem para justificar a não resposta a problemas há muito identificados e isso não sucedeu mais cedo, porque o esforço individual de muitos oficiais, sargentos e praças foi dando resposta às necessidades. Ora, a disponibilidade para essa «carolice» cai a pique e é compreensível que assim seja, porque tudo tem um limite a partir do qual perde o sentido. Por muito que Chefias e Ministro o neguem, não há como apagar o mal-estar que perpassa nas fileiras.

Ninguém intelectualmente sério pode negar o efeito devastador do novo (já velho) Regulamento de Avaliação do Mérito, gerador de inaceitáveis ultrapassagens no ordenamento para promoção, com consequências irreparáveis na vida dos militares. Ouvir o Ministério da Defesa Nacional afirmar que o mesmo está a ser aplicado de forma equilibrada só pode causar arrepios. Aquilo que se impunha, como aliás adiantámos há mais de um ano, era suster a sua aplicação para não causar mais danos. E como compreender, por exemplo, que no ordenamento para promoção em Infantaria haja 80 oficiais superiores para promoção a Coronel e só 17 sargentos para promoção ao posto máximo desta classe? Esta desproporção não revela que algo está errado no modelo existente?

O aumento da remuneração dos militares que entram para a instrução militar básica é positivo, mas «esquecer» que se aproxima rapidamente o momento em que militares mais modernos ficam a ganhar mais do que militares mais antigos ou de posto superior, é desastroso. Aquilo que se impõe com urgência é rever a tabela remuneratória, actualizando os vencimentos que estão congelados desde 2010. E rever também os valores e critérios para os diversos subsídios e suplementos, em vez de, como alguns parecem estar a ensaiar, criar novos subsídios assentes em justificações muito duvidosas e potencialmente geradores de injustiças relativas.

Os problemas sócio-profissionais que assolam os militares não se resolvem com campanhas de acção psicológica, através de expedientes como sejam fardas novas ou nova simbologia para meter na lapela ou novos subsídios criados avulso para tentar conter insatisfações.

É indiscutível que é na política praticada por sucessivos governos que se encontram as responsabilidades pelo estado em que as coisas se encontram. Mas não é menos verdade que também as Chefias Militares têm contribuído por inacção, omissão e/ou acção em sentido contrário aos interesses dos seus subordinados. O Regulamento de Avaliação ou opções e prioridades em matéria de reequipamento, para não irmos mais longe, servem de exemplo.

O trilhar caminhos de adiamento para o tratamento dos problemas só aumenta a sua dimensão e alarga o número de danos por eles causados, sendo que são pessoas, homens e mulheres, que estão em causa.




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