Infame preconceito

Pedro Guerreiro

A China está a estabelecer um novo padrão de resposta a surtos

Nos últimos quatro meses, mais precisamente de 1 de Outubro de 2019 a 1 de Fevereiro de 2020, em consequência de gripe ou por causas a esta associadas terão sido hospitalizadas nos EUA cerca de 210 000 pessoas e apontadas cerca de 12 000 mortes. Estas são as estimativas mais optimistas divulgadas, recentemente, pelos Centros para o Controlo e a Prevenção da Doença (CDC) do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, relativamente ao surto de gripe que actualmente se verifica neste país. A mesma instituição norte-americana estima que, desde 2010, as mortes associadas a surtos de gripe terão provocado em média e por ano cerca de 37 000 mortes nos EUA – país cuja população se estima em 330 milhões.

Obviamente que, com esta referência, não se procura subestimar a gravidade, o impacto ou a ameaça que representa o actual surto epidémico de um novo coronavírus – designado de Covid-19 pela Organização Mundial de Saúde (OMS) –, mas tão só ter uma escala comparativa na avaliação desta nova epidemia e dos esforços que a China tem desenvolvido para a combater e prevenir a sua propagação.

Aliás, bastaria atentar nas palavras do Director-geral da OMS – organização adstrita das Nações Unidas – para atestar do significado e importância das medidas até aqui implementadas: «o Governo chinês deve ser congratulado pelas medidas extraordinárias que adoptou para conter o surto, apesar do severo impacto económico e social que essas medidas estão a ter para o povo chinês. Teríamos visto muitos outros casos fora da China – e provavelmente mortes – se não fossem os esforços governamentais, e o progresso que fizeram para proteger o seu povo e os povos do mundo».

E, acrescenta, «a rapidez com que a China detectou o surto, isolou o vírus, sequenciou o genoma e o partilhou com a OMS e o mundo são muito impressivos, e para além de palavras. O mesmo acontece com o compromisso da China com a transparência e o apoio a outros países. De muitas formas, a China está realmente a estabelecer um novo padrão para a resposta a surtos. Não é um exagero».

O Director-geral da OMS clarifica ainda que o principal motivo que está na origem da declaração de emergência de saúde pública internacional «não é o que está a acontecer na China, mas o que está a acontecer noutros países. A nossa maior preocupação é o potencial do vírus se propagar a países com sistemas de saúde mais débeis e não preparados para lidar com este», adiantando, entre outras recomendações, que «não há razão para medidas que interfiram desnecessariamente com as viagens e o comércio internacional» e que é necessário «combater a disseminação de rumores e a desinformação».

Só o preconceito anticomunista, o condicionamento ‘canino’, a sobranceria xenófoba de alguns pode explicar a tentativa de aproveitamento da actual situação para atacar a China e – independentemente de lacunas que as autoridades chinesas procuram ultrapassar – depreciar os significativos esforços levados a cabo por este país para vencer o surto epidémico – contribuindo para a contenção da sua propagação ao nível internacional – e para superar as suas consequências sociais e económicas, continuando a avançar na resposta aos desafios do seu desenvolvimento e progresso social.




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