Legado
Consumido por saudosismo, João Miguel Tavares veio invocar o «legado» de Passos Coelho. Sem réstia de culpa para os milhentos migueis deste país, que tendo o azar de a este ter sido dado nome igual têm de arcar com os respectivos dislates, este insiste em fazer do homónimo a ponte para o que de mais retrógrado a nossa história tem. Dir-se-ia que este Miguel, o Tavares, personifica no outro Miguel - o que de apelido Vasconcelos por cá andou há quatro séculos a mando de Filipe IV e da dominação espanhola a saquear o País por via de impostos e outras malfeitorias - a governação que desejaria ver institucionalizada.
Não cometendo a desconsideração de que o opinador ignore o significado do termo «legado», ou seja «deixar algo a outro, de valor ou não», e atendendo a que o trabalho a que se deu para produzir a prosa vertida não foi para desmerecer de Passos e companhia, o que Tavares pretende é assinalar o valor da herança que aqueles cá deixaram. Citando o próprio, para que não se julgue o autor das linhas que agora se escrevem sob o efeito de substâncias inebriantes, o Governo de Passos Coelho foi um «tempo arejado» pejado de inenarráveis méritos a que se confessa rendido. A começar pela forma como lidou com a banca e Ricardo Salgado. O que só pode significar que os oito mil milhões de euros vertidos na resolução do BES e na posterior venda do Novo Banco pela mão de Sérgio Monteiro são, não o desastre nacional que se vê, mas a lufada de ar que retire Tavares do sufoco que hoje o atormenta. A Tavares falta-lhe aquela brisa que vinha do assalto a salários e reformas, da oferta do património nacional a multinacionais, do desinvestimento até à exaustão de serviços públicos, dos tempos do ataque ao SNS pela mão de quem se entretém hoje a tentar dar cabo da Caixa Geral de Depósitos e a abrir espaço à banca estrangeira. Eis o «legado», esse poço (na verdadeira acepção da palavra) de virtudes para onde os migueis tavares deste País nos querem enfiar.