Golpes invisíveis

Gustavo Carneiro

A forma como a comunicação social dominante (detida ou associada a alguns dos maiores grupos económicos do mundo) aborda as variadas temáticas internacionais é de molde a construir a narrativa que melhor serve ao imperialismo. A gestão do que se diz, quando se diz e como se diz, ou não se diz, é criteriosa.

À semelhança da Venezuela, o caso da Bolívia é paradigmático. No início deste século (para não ir mais atrás, e motivos não faltariam para que o fizéssemos), a Bolívia era um típico país latino-americano: rico em recursos naturais, estes beneficiavam apenas uma ínfima minoria de bolivianos e grandes multinacionais. Grande parte da população, maioritariamente indígena, sobrevivia na pobreza, entre os planaltos e as minas, sem instrução, serviços de saúde, protecção social, luz e água canalizada. Para a generalidade da comunicação social de referência isto nunca foi notícia.

Na mesma altura, registaram-se poderosas lutas contra o neoliberalismo e em defesa dos poucos recursos que ainda permaneciam em mãos nacionais, depois de duas décadas de «experiências» do FMI no país. A Guerra da Água e a Guerra do Gás resultaram em extraordinárias vitórias populares, apesar da repressão que se abateu sobre os protestos. Mas nada disto interessou às televisões e aos jornais do mundo democrático e ocidental.

Em 2005, o sindicalista aimara Evo Morales venceu as eleições presidenciais com maioria absoluta à frente do Movimento Pelo Socialismo. Quatro anos mais tarde, a nova constituição declara a Bolívia um Estado Plurinacional, consagra a propriedade nacional dos recursos naturais e o direito de cada boliviano à água, à alimentação, à saúde, à educação, à habitação e proíbe bases militares estrangeiras no país. Coisas sem importância, a julgar pela pouca (ou nenhuma) atenção mediática que suscitaram.

Durante os mandatos de Evo Morales, a Bolívia transformou-se radicalmente: a nacionalização dos hidrocarbonetos permitiu um crescimento do PIB superior a 300%, a quebra abrupta da pobreza e do desemprego e a erradicação do analfabetismo. E nem isto mereceu primeiras páginas ou referências em noticiários.

Recentemente, porém, de imediato não faltou espaço e tempo de antena para dar voz aos golpistas, amplificando infundadas acusações de fraude eleitoral mas ocultando a violência que praticaram sobre sindicalistas, indígenas e políticos eleitos e toda a intimidação e ameaça que rodeou a «renúncia» de Evo Morales. Do mesmo modo que silenciam a resistência popular ao golpe e a natureza fascista e racista dos que tentam agora tomar conta do país para voltarem a pilhar o que durante estes anos foi de todos.

Procuram fazer crer que tudo se reduz à trilogia fraude, protestos, renúncia. Mas foi golpe!




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