Falar dela, e depois
Durante mais de hora e meia o último «Prós e Contras» aplicou-se a falar de cultura, e fê-lo a partir da Fundação de Serralves, que não é um lugar qualquer nessa matéria. Em horário em que a maioria dos canais ditos informativos nos fala de coisa bem diferente noite após noite, o caso será para registar e agradecer porventura sem olhar muito ao intrínseco mérito da prenda, para mais reforçada com a presença da ministra da área. Pelo título que trazia, o programa arrastava um compromisso: informar-nos de «a cultura que nos define». Em verdade não se terá notado essa informação; mas falou-se de cultura, de diversas manifestações dela que vão acontecendo por esse país fora, e sendo as coisas o que são talvez devamos ficar agradecidos, sabendo embora não apenas que na semana próxima o tema do «Prós e Contras» será outro, como é normal, mas também que a cultura poderá não estar muito presente mesmo na RTP2, que se gaba de ser «culta e adulta» com uma imodéstia que não lhe fica bem. A dada altura falou-se um pouco misteriosamente de «o ADN de ser português» mas a questão ficou pela referência, sumiu-se sem deixar saudades até porque poderia desembocar em fantasias inúteis e um pouco tontas. Em casos destes, o melhor é não arriscar.
Televisão e partilha
Entretanto e dado o tema escolhido, não teria sido extravagante que fosse abordada em termos de avaliação e de crítica a intervenção da própria RTP no que talvez possa ser designado como partilha cultural com a população telespectadora: não seria ponto obrigatório mas era adequado, até porque o impacto da TV nas lusas cabecinhas é forte e inegável, porventura contribuindo muito significativamente para a determinação da tal «cultura que nos define». Em verdade, a mera existência da televisão é um factor cultural de enorme peso quer se queira quer não, de sinal positivo ou negativo, pelo que a sua própria gestão é um dado de grande relevância cuja abordagem quase se impunha. Não aconteceu, porém, porventura por esquecimento, decerto que não por modéstia. Talvez seja significativo e quase simbólico que na televisão pública portuguesa desde há quase incontáveis anos não haja um ainda que breve programa de poesia, sendo absurdo supor que não exista quem nele pudesse trazer-nos alguma poesia com acerto e dignidade. Mas a poesia é aqui lembrada quase apenas como símbolo: o acesso a temas de conteúdo culturalizante pode e deve ser múltiplo e variado, apenas sendo necessário que seja encetado com bom senso, exigência talvez mais difícil do que parece. Não vem acontecendo. Digamos, optimistas, que chegará um dia.