Ela move-se
Diz-se que Galileu, após ter renegado perante o tribunal da Inquisição a teoria segundo a qual a Terra gira em torno do Sol, terá murmurado entre dentes as palavras eppur si muove (no entanto, move-se). Se ninguém pode com segurança garantir a autenticidade do episódio, o que é certo é que a expressão ganhou vida, e com ela novos significados.
Em 1933, no tribunal nazi-fascista que o procurava condenar, e com ele aos comunistas, pelo incêndio do Reichstag (que se viria a revelar obra dos próprios hitlerianos), Georgi Dimitrov afirmou: «eppur si muove! A roda da História move-se.» Sensivelmente o mesmo que faria, dois anos depois, Bento Gonçalves, perante os fascistas que o acusavam: «O Tribunal vai ditar-me a sentença. Que faça o Tribunal o que entender. Quanto a mim, mantenho-me nesta convicção: a Terra gira!»
Se no caso de Galileu se estava no domínio da Física e da Astronomia, os dois comunistas, em situações particularmente dramáticas, falavam-nos do movimento perpétuo da História, que como Marx desvendou avança (e recua) com a luta de classes. O que se passa no Chile é, a este respeito, exemplar: ninguém acreditaria, há apenas um mês, que hoje o povo chileno estaria nas ruas pelo vigésimo oitavo dia consecutivo a exigir a demissão do presidente Piñera, o fim das políticas neoliberais herdadas da ditadura de Pinochet e a elaboração de uma nova Constituição. O que é compreensível, pois se nas últimas duas décadas a luta esteve acesa na América Latina, poucas vezes o Chile esteve no seu epicentro.
No entanto, a insatisfação estava lá, assim como a revolta, e bastou uma chispa (no caso, o aumento dos transportes e a repressão que se abateu sobre os primeiros protestos) para que tudo se precipitasse. E «tudo», aqui, é a determinação de um povo que ousou retomar a busca de um sonho colectivo de liberdade e justiça social, brutalmente interrompido pelo golpe fascista de 11 de Setembro de 1973, preparado em Washington ao serviço dos Chicago Boys. É esse povo que hoje escancara as «grandes alamedas por onde passará o homem novo», de que falava Allende, e o faz ao som das canções de Victor Jara, Violeta Parra e Inti Illimani e das palavras de ordem da Unidade Popular.
Mas esta crónica não é sobre o Chile e nela não cabe qualquer análise à situação que ali se vive e às perspectivas do seu desenvolvimento. É, sim, sobre o combate milenar dos explorados e da responsabilidade histórica que cabe aos comunistas de o levar a bom porto. No Chile, na Bolívia, no Brasil ou em Portugal. Em exaltantes momentos de avanço ou quando tudo parece infinitamente adiado ou até mesmo perdido. Para que ande no sentido certo o movimento imparável da Terra.