Realidade e transfiguração na escrita de Fernando Namora (1919/2019)

Domingos Lobo

Fernando Namora foi um dos nossos mais profícuos autores, com mais de 30 obras publicadas

1919 foi um ano pródigo para as letras portuguesas. Nesse ano nasceram alguns dos autores mais importantes da nossa poesia, da novelística, do teatro e da análise literária, cujas obras, a singularidade estética e o compromisso social nelas expresso, em tempo de vampiros, ainda hoje permanecem como marcos incontornáveis de uma literatura de combate e resistência: Fernando Namora, Sophia de Mello Bryner, Jorge de Sena, João José Cochofel, Bernardo Santareno, entre outros.

Namora, médico como Santareno, tematiza, em diversos dos seus livros (Terra, A Noite e a Madrugada, O Trigo e o Joio, Retalhos da Vida de um Médico, Casa da Malta) as feridas que o fascismo ia inculcando no tecido social, mormente nas comunidades rurais do norte do País, realidade que o autor de Fogo na Noite Escura conhecia por origem e vivência.

Namora vem de uma família de «homens do arado», conheceu as agruras do campo, a fome e a miséria, os remedeios que fingem a vida aos tropeções nela, sabe das mãos calejadas, das lágrimas de mulheres submissas e tementes, das crenças que suspendem os dias aziagos, sabe «da obscuridade da pobreza», possuía um profundo conhecimento das classes sociais e transporta esses saberes, essa feraz experiência, para impregnar de verosimilhança as personagens que habitam os seus textos, sem cedências nem paternalismos.

No prefácio que escreveu para Os Clandestinos1, José Manuel Mendes diz-nos sobre as atmosferas agrestes da infâmia, da lugubridade desse tempo português: E aqui está toda a atmosfera traumatizante dum viver social feito de peias e de hiatos, a marcar cada homem, a atolá-lo numa renúncia inconsciente. Afinal, e isto é o que mais importa sublinhar, a clandestinidade de Vasco é a clandestinidade de muitos de nós. O tempo da longa noite entenebrecedora, com toda a sua carga neuropática, cravou em nós um ferrete doloroso. É nesse ferrete, nessa dor viúva, na descrição sofrida do real, quando as mazelas do humano percorrem o seu discurso, as fístulas que emergem dos pesadelos dos homens comuns, dos medos, que a escrita de Namora atinge plenitude e significado social e lúdico.

O longo poema narrativo Terra, que inaugura a colecção Novo Cancioneiro, dá-nos de modo singular, dorido e crítico, a descrição do mundo rural (Planície, de Manuel da Fonseca, será publicado posteriormente), num romanceiro das vivências, da fome, do amor, do desespero e das esperanças de uma comunidade que não encontra outra forma de ultrapassar a miséria e a fome, do que emalar trouxa e ir pelo mundo à procura de debelar a fome, porque o moleiro não fia,/a terra é estéril,/a arca vazia/o gado minga e se fina2.

Se Terra é o grito telúrico contra o silêncio e os horizontes fechados do país salazarento, um livro sem escola, produto das perplexidades sociais e do lírico empenho de Namora, A Noite e a Madrugada3 pertence já a outro domínio da sua arte narrativa: é um livro maduro, onde a mesquinhez, a raiva dos Parra, a violência primeva, a sedução por uma sociedade que se fecha nos seus labirintos e expulsa o humano que lhe subjaz, as contradições de classe, os esconsos marginais, invadem a narrativa, num estilo a apurar-se, no verbo pujante, na transfiguração do real, na ficção urdida nos limites do imaginário.

Fernando Namora foi, até aos anos 1980, um dos nossos mais profícuos autores, com um processo de escrita que atingiu, dentro da estética do realismo social, mais de 30 títulos publicados, entre romances, contos, crónicas e poesia, sendo um escritor com raro acolhimento público, sucesso editorial que só encontra paralelo na obra de Alves Redol.

Neste ano em que se comemoram os cem anos do seu nascimento, será óptimo pretexto para regressarmos, ou descobrirmos, a qualidade excepcional da escrita4 de um autor que soube transfigurar o real, dando-nos o sórdido e o abjecto e transformando esse fundo repulsivo num amplo grito de revolta contra o medo e as injustiças. Daí a sua actualidade.

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1Utilizo a 4.ª edição de Os Clandestinos, Lisboa, 1977, edição Bertrand

2Terra, de Fernando Namora, p.37, Novo Cancioneiro (edição em facsimile), Althum, Lisboa, 2010

3Estão à venda duas edições deste romance, uma através do jornal Público, a edição facsimile da 1.ª edição, e uma nova edição da Caminho.

4Opinião expressa por Urbano Tavares Rodrigues, na badana da 11ª. edição de A Noite e a Madrugada



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