Chão
O MST organiza mais de 1 milhão e meio de pessoas
Numa propriedade ocupada pertencente a uma fábrica de processamento de cana de açúcar («usina») endividada e em processo de falência, o MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil luta para pressionar o governo a redistribuir as terras e a instalar as famílias acampadas. Esta é a sinopse do filme Chão (Landless), estreado em Fevereiro no Festival de Cinema de Berlim, vencedor de dois prémios no Festival de Curitiba e agora apresentado no 17.º DocLisboa.
É um filme-documentário de inegável prestígio e qualidade que nos mostra uma experiência concreta da luta do MST pela terra, a Reforma Agrária e a transformação social, protagonizada por 500 famílias no processo de ocupação (e implantação do respectivo acampamento) no latifúndio de Santa Helena, no Estado de Goiás. Realização de Camila Freitas, os trabalhos de filmagem prolongaram-se por quatro anos, numa relação de grande proximidade, por vezes intimista, procurando captar todas as dimensões da vida dos acampados.
Ao focar-se neste acampamento em particular, no filme emerge com toda a sua brutal crueza o problema da concentração da terra e das enormes desigualdades sociais no Brasil, o segundo país no mundo com a maior concentração de terra. Além disso, grande parte dessas terras produzem pouco ou quase nada. Dos aproximadamente 400 milhões de hectares privados, apenas 60 milhões são utilizados como lavoura. Cerca de 1% dos proprietários rurais detêm cerca de 46% de todas as terras, com a maior concentração nas mãos de empresas transnacionais como a Monsanto, Syngenta, Nestlé, Bunge, Bayer, Dupont e Cargill.
Actualmente, existem no Brasil cerca de quatro milhões de camponeses sem terra (agricultores que não possuem nenhuma terra ou não possuem terra suficiente para sobreviver), junto de quem o MST organiza e conduz a luta, promovendo ocupações, como aquela que o filme mostra, como principal mecanismo de pressão para que as terras que não cumprem função social sejam destinadas à Reforma Agrária.
Como o filme também mostra, a ocupação implica a implantação de acampamentos, que mais não são do que formas de luta, resistência e organização, onde as famílias passam a viver, organizadas de forma colectiva, cada uma com uma tarefa e todos a participarem dos processos de decisão da comunidade, nomeadamente sobre a organização das fases seguintes da luta. Os assentamentos, outra forma de organização, são espaços de vida, dignidade e produção que se constituem quando a terra é conquistada, ou seja, quando o Estado desapropria as terras e dá o direito de uso às famílias. No assentamento, as famílias camponesas vivem, trabalham e produzem, dando função social à terra.
Mesmo depois de assentadas, as famílias permanecem organizadas no MST, pois a conquista da terra é apenas o primeiro passo para a realização da Reforma Agrária. A luta continua para garantir direitos sociais, entre os quais o direito a condições de vida dignas e a um novo modo de produzir alimentos saudáveis para toda a população.
Ao todo, o MST organiza mais de 1 milhão e meio de pessoas, em cerca de 1200 municípios, localizados em 26 estados e no Distrito Federal de Brasília.
Hoje estão acampadas 150 mil famílias e 380 mil estão assentadas em todo o Brasil. Mais de 60 cooperativas e cerca de 100 associações integram o processo produtivo do MST.
O filme deverá vir a ser lançado no circuito comercial no Brasil e é de questionar por que não entra nas salas de cinema comercial em Portugal, onde 5 empresas detêm 97% do sector. Continuará também a marcar presença em festivais de cinema: é o caso, esta semana, dos festivais IDFA (Amesterdão) e Viennale (Viena) e em outros eventos e iniciativas também em Portugal. Um filme a não perder.