O fim
«É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo» é o título de um capítulo do livro Capitalist Realism (Realismo Capitalista), do escritor e crítico musical norte-americano Mark Fisher. Mas bem que podia ser o lema, e ao mesmo tempo objectivo, das centrais de manipulação ideológica do grande capital, as mesmas que no final do século XX pariram a tese do Fim da História, hoje com meios incomensuravelmente superiores à sua disposição.
A intenção é simples: afastar da consciência das massas qualquer possibilidade de superação do capitalismo, apresentado como sistema final, único, da evolução social – mais ou menos «verde», com um rosto mais ou menos «humano», mas sempre sem alternativa. Permitindo, assim, desviar importantes movimentos e lutas sociais da questão fundamental do Estado e do sistema económico e, se possível, facilitando a abertura de novas áreas de negócio para o capital.
Duas questões importantes e muito em voga por estes dias – a «revolução tecnológica» e o ambiente – são paradigmáticas a este respeito. Sobre a primeira diz-se que vai (assim, sem quaisquer dúvidas!) provocar centenas de milhões de desempregados em todo o mundo, pois as funções que actualmente desempenham serão tornadas inúteis pelos robôs e avançados computadores. Da segunda que caminhamos para uma espécie de apocalipse ambiental e que a responsabilidade pela situação do planeta é das anteriores gerações e dos que hoje são adultos. Em ambos os casos, as soluções apresentadas em horas de emissão televisiva e radiofónica e incontáveis páginas de jornais e revistas é individual: audácia e preparação para os novos tempos, num caso, mudança de comportamentos e hábitos, noutro.
Aos que defendem, e são muitos!, que os avanços tecnológicos são património de toda a Humanidade e que lhe devem corresponder a melhoria das condições de trabalho e de vida (desde logo reduzindo a jornada laboral) é dada pouca ou nenhuma voz. O mesmo que sucede a todos quantos – e tantos que são! – vêem na degradação ambiental o resultado da pilhagem de recursos e da mercantilização da Natureza e que, em coerência, apontam soluções que não só não alargam a margem de manobra das multinacionais como claramente a restringem. Compreende-se que assim seja. O capital quer ganhar ainda mais a fingir que resolve o que efectivamente provocou. Está na sua natureza.
Mais do que conceber o fim do mundo como se de uma distopia hollywoodesca se tratasse, é urgente avançar decididamente para o fim – ou melhor, para a superação – do capitalismo, travando todas as lutas intermédias, parcelares, que apontem nesse sentido. O campo dos que nele estão objectivamente interessados alarga-se; cabe aos revolucionários do mundo uni-los e organizá-los.