O «11»

Correia da Fonseca

Com o primeiro dia do mês 8 chegou o Canal 11, acessível na posição 11 dos televisores graças ao MEO, ao NOS e à Vodafone. E 11 não por acaso, é claro: porque são 11 os atletas que integram qualquer equipa de futebol (do futebol de 11, pois também há outros futebóis, como bem se sabe, designadamente o futsal e o futebol de praia), pelo que claramente se vê que o canal 11 vem para ter uma vedeta e um assunto. Filho assumido da Federação Portuguesa de Futebol, o Canal 11 é um passo importante no quadro da televisão portuguesa, e por isso a sua chegada é assunto nesta coluna que tem a TV por tema, ainda que seja obviamente prematuro tentar prever se terá consequências na abordagem do futebol pela generalidade das operadoras portuguesas de televisão. Um efeito pode desde já considerar-se possível: a sobredose de futebol como tema adoptado por quase todos os canais a partir das 21 horas tem a partir de agora uma concorrência especializada, e isso parece uma boa coisa pelo menos a quem deseje que esses canais se libertem da obsessão futebolística em que têm vivido. É que, ao contrário do que muitos parecem entender, há outros mundos, digamos assim, por muito que o mundo do futebol possa tornar-se literalmente apaixonante, isto é, suscitador de paixões.

Alguma esperança, naturalmente

Surgido por obra e graça da Federação, o Canal 11 chega com deveres que decorrem dessa circunstância: as polémicas que o habitem não podem (no sentido de que não devem, obviamente) assumir o tom agressivo, deseducado e deseducador, que por vezes tem caracterizado a troca de argumentos de coloração clubista que têm vindo a preencher os serões dos canais ditos informativos. Essa saudável limitação, consequente das condições do seu nascimento, pode legitimar um eventual optimismo: a expectativa de que um canal em que as seivas clubistas não floresçam em discursos agressivos e reles como até agora tem vindo a ocorrer embora esporadicamente. Mas talvez possamos alongar o horizonte deste optimismo e admitir que, com alguma sorte, o 11 pode injectar mais inteligência na abordagem das questões relevantes, e também eventualmente apaixonantes e apaixonadas, que o futebol transporta consigo e de algum modo o parasitam. Dir-se-á, e com razão, que esta é uma visão optimista. Mas isso não pode surpreender: o 11 acaba de nascer e é tradicional que os recém-nascidos suscitem previsões e votos impregnados de esperança. Sem a qual quase se diria que nem lhes valia a pena nascerem.




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