Bonecos de Santo Aleixo, um património vivo do Alentejo

Os Bonecos de Santo Aleixo nunca foram do agrado do poder vigente

Os Bonecos de Santo Aleixo participaram, em 2018, na Festa do Avante!, tendo uma extraordinária adesão dos visitantes. Uma iniciativa que valorizou a Festa e que a Festa destacou como património vivo e prática cultural e artística que preserva, valoriza e afirma as raízes culturais e os valores identitários do Alentejo.

Não conhecemos com exactidão quando surgiram estes títeres de varão, manipulados por cima, à semelhança das marionetas do Sul de Itália e do Norte da Europa. Sabemos que nos finais do século XVIII já existiam e que nada se conhece, na Europa Ocidental, comparável a este espectáculo, pelas suas qualidades de rigor e fantasia na expressão, e pela sua rara e salutar agressividade. Um frenesim, onde a fantasia e até o fantástico, com um repertório sacro e profano, se aliam naturalmente, num diálogo surpreendente com o público, com reacções nem sempre pacíficas, pontuadas por gritos, palmas, disputas, assobios e comentários ásperos à actuação das figurinhas de pau. Tal como hoje, pela mão dos bonecreiros do Centro Dramático de Évora – CENDREV, era assim que acontecia, nos celeiros e barracões, até há décadas atrás, no retábulo, à luz da candeia de azeite, até altas horas da madrugada.

Todos os anos, em Novembro, Mestre Talhinhas, família e Manuel Jaleca, partiam de Rio de Moinhos, Borba, Évora, numa carroça puxada por uma mula, percorrendo as localidades e montes dos concelhos vizinhos, em digressão, normalmente, até ao Carnaval, o que coincidia com o pior período de desemprego do ano, devido ao inverno.

Os Bonecos de Santo Aleixo

como contra poder

Estes títeres nunca foram do agrado do poder vigente, pelo papel que tinham na sociedade onde questionavam os costumes, fazendo insinuações sobre o namoro, o sexo e a fidelidade, troçavam e subvertiam as regras sociais e humanizavam os chamados mistérios divinos. Com arguta percepção da realidade eram a voz dos que não tinham voz e uma criação artesanal que não estava ao serviço das classes dominantes.

Michel Giacometti dá como exemplo a peça o Passo do Barbeiro que troça, sem reservas, das autoridades constituintes e refere a dimensão humana dos Autos da Criação do Mundo e do Nascimento de Menino Jesus, afirmando que «estas peças são uma alusão constante à condição do homem alentejano».

Um testemunho da forma como eram tratados pelo poder encontra-se no documento Memórias de Vila Viçosa, que refere a apreensão e queima, em 1798, de uns títeres «a que chamavam de Santo Aleixo e em que figurava desonesta e vilmente um Padre Chancas», num autêntico auto-de-fé. Durante o fascismo, em alguns lugares, existia um ambiente hostil aos títeres, pela linguagem e conteúdos da apresentação, sobretudo de pessoas influentes, alinhadas com as autoridades locais que, algumas vezes, não lhes passavam a licença de representação.

O papel decisivo de Michel Giacometti

A investigação de Giacometti, em 1967, deu a conhecer ao mundo culto os Bonecos de Santo Aleixo, sem a qual, muito provavelmente, não estariam ainda em actividade.

Uma grande parte dos participantes na investigação eram militantes do PCP*, o que é um exemplo de como a luta contra o fascismo assentava, e muito, na valorização, defesa e afirmação do património e da cultura, enquadrada na resistência e luta mais geral pela democracia e pela liberdade. …………………..

*Michel Giacometti, Fernando Lopes-Graça e Aníbal Falcato Alves.




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