A Europa, lá longe

Correia da Fonseca

Desta vez o «Prós e Contras» resolveu viajar, e em celebração da escolha recente de eurodeputados novos ou renovados aplicou-se a fazer uma emissão especial. Especial mas quase incomodamente vazia de interesse: poucas vezes o «Prós e Contras» terá atingido um idêntico nível de desinteresse e suscitado na generalidade do telepúblico um semelhante nível de enfado. E a raiz desse resultado pode ser significativa: pode ser consequência do escasso interesse que essa peculiar «Europa» que é a UE tem para os cidadãos portugueses que, em verdade, sentirão a União Europeia com sede em Bruxelas ou em Estrasburgo mais como uma ameaça, um poder de onde vêm ditames desagradáveis e/ou nocivos, que como um conforto. Aliás, ao longo do tempo que este «P. e C.» durou, não aconteceu nenhum momento em que o interesse do cidadão telespectador pudesse ter sido verdadeiramente estimulado. Não decerto por defeito de todos os eurodeputados, recentes ou já veteranos, mas talvez antes porque o Europarlamento é consideravelmente inútil por escassez de poderes e sobretudo porque os cidadãos telespectadores pouco ou nada se sentem a ele ligados.

A dimensão esquecida
Esta desafeição perante a Europa bruxelense não significa forçosamente igual indiferença perante outra ideia de uma Europa que, à semelhança do estribilho que muitas vezes se repete acerca de Portugal, também ela «deu novos mundos ao mundo». Já aqui alguma vez se terá citado Dennis de Rougemont que em tempos falou de «a Europa, essa Grécia ampliada», aludindo obviamente à sua carga cultural. Infelizmente, porém, esse perfil cultural da Europa nem sequer perpassou pela reunião de eurodeputados havida neste «Prós e Contras» nem é frequente que essa dimensão seja lembrada neste ou em qualquer outro programa: aparentemente, para a RTP e não apenas para ela a «Europa» será um lugar de onde podem e devem vir alguns dinheiros, por essa função se ficando. Contudo, é óbvio que todos os eurodeputados não apenas sabem ler e escrever como também fazem uso regular dessa prenda, ainda que por vezes talvez não com muito proveito. A questão é que a inserção do nosso país na Europa (com ou sem aspas) há-de ultrapassar o âmbito da economia e das finanças, por muito sacrossantas que elas sejam, para incluir a dimensão cultural. Não é, infelizmente, aspecto que pareça lembrar muito aos eurodeputados, como se viu e ouviu mais uma vez. Resta a esperança, ainda que difusa, que um dia destes a questão lhes ocorra.

 



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