Chico Buarque, um operário da esperança

O operário de Construção (1971), que ali percebemos «caindo sempre e sempre, ininterruptamente, na razão directa dos quadrados dos tempos» é aquele de quem Karl Marx diz que «só vive enquanto encontra trabalho e só encontra trabalho enquanto o seu trabalho aumenta o capital. Este operário, que tem de se vender à peça, é uma mercadoria como qualquer outro artigo de comércio, e está, por isso, igualmente exposto a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as oscilações do mercado».

Talvez por ter perdido o seu valor, aos seus olhos de explorado ou aos de quem dele se usava, «tropeçou no céu como se fosse um bêbado / E flutuou no ar como se fosse um pássaro / E se acabou no chão feito um pacote flácido / Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego». Nada mais houvesse na obra de Chico Buarque e esta canção bastaria como justificação do seu préstimo criador, tão violentamente expressiva é a caracterização da sociedade de classes de que o capitalismo se alimenta.

Chico Buarque cantou Construção na Festa do Avante!, na noite de 13 de Julho de 1980 – o anfiteatro do Alto da Ajuda a abarrotar de gente preparada para acompanhar cada uma das canções que o cantor-compositor-poeta ali deixaria, acompanhado pelo grupo vocal MPB4, Edu Lobo, e Simone (que cantou «vem, vamos embora que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora não espera acontecer»). O alinhamento do memorável concerto incluiria, entre muitos temas, Apesar de Você, Fado Tropical, Morena de Angola (ali estreada), Geni e o Zepelim, Roda Viva, Cio da Terra, Cálice, Tanto Mar (em homenagem à Revolução de Abril). E ainda Se Todos Fossem Iguais A Você, de Vinicius de Moraes, falecido a 9 de Julho e homenageado entre bandeiras comunistas à vista do Tejo.

Foram cerca de duas horas de música e de luta, um gigantesco comício contra a ditadura brasileira instalado na margem de cá do Atlântico, os punhos levantados pulsando esperanças de que «o Brasil vencerá».

Para grande parte dos milhares de militantes comunistas, obreiros e visitantes da Festa, vinha de longe o conhecimento da obra de Chico Buarque, alguns desde o anúncio musical da suspensão dos males-da-vida ao som de uma Banda a «passar, cantando coisas de amor». Já nesse tempo da Banda, tempo de fascismo também em Portugal, o canto de Chico Buarque anunciava um modo novo de cantar o Brasil, nem só samba e nem só modinha, mas uma e outra tingindo um discurso musical-poético cheio de esperança. Às vezes duro, outras vezes doce, elegante sempre.

O lirismo de Chico Buarque é paixão e marca de classe, recusando o romantismo xaroposo de recorte machista. Em Olhos nos Olhos, Trocando em Miúdos, Valsinha (com música de Vinicius) e muitas outras canções, o amor é assunto entre iguais ou, como em Mulheres de Atenas, denúncia da desigualdade.

Muitas das personagens de Chico Buarque – O Guri, Minha História, Geni e o Zepelim, Joana (de Notícia de Jornal), Pivete – habitam uma terra de proscrição em que o autor-cantor semeia alertas, criando um espaço cénico no qual o holofote ilumina as humanidades dos marginalizados nesta sociedade (neste planeta) de insuportáveis assimetrias. Já em Angélica, Funeral de um Lavrador, Apesar de Você, Pelas Tabelas, Cálice e muitas mais, o assunto é a luta consciente contra o fascismo e a favor de uma sociedade justa.

Longas vão as palavras e, mesmo assim, ficaria quase tudo por dizer, não fora podermos recorrer ao traço sintético de Oscar Niemeyer, arquitecto e comunista, sintetizando assim o perfil do grande poeta-romancista-compositor-intérprete que acaba de ser distinguido com o Prémio Camões: «é bom falar do Chico Buarque. Do seu talento extraordinário. Da coragem e dignidade invariáveis com que se comporta diante da vida e dos humanos.»

 



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