Transferências
Foi na manhã da passada segunda-feira, quando os diversos canais da televisão portuguesa se aplicavam a cobrir a chegada à capital espanhola do João Felix, o jovem «crack» português que, como se sabe, foi transferido para o Atletico de Madrid por um preço que não será excessivo qualificar de invejável, sem prejuízo de poder ser justo dadas as alturas que no peculiar mundo dos futebóis atingem as remunerações dos melhores cotados. Estava, pois, o jovem Felix ainda no jeito de forasteiro meio embaraçado, bem menos à vontade naquela sala que nos relvados, quando a notícia passou no rodapé do ecrã: um importante banco alemão, o Deutsche Bank, anunciara o despedimento de dezoito mil dos seus empregados até 2022. Era um outro tipo de transferências que assim era anunciado: transferência de dezoito mil vidas, sem contar com os familiares dos despedidos, para uma situação que a notícia não descrevia mas que facilmente se adivinha não ser invejável nem sequer normal, pois o trabalho é uma dimensão natural da vida e não apenas por força da subsistência que a sua remuneração garanta.
Uma lição involuntária
Não se sabendo em que condições se é desempregado na Alemanha, resta admitir que o desemprego seja ali subsidiado com valores aceitáveis e por tempo bastante para que a recuperação atempada de um outro emprego seja possível. Ainda assim, contudo, a notícia impressiona, preocupa e denuncia. Mais: remete para a visão global e crítica de um quadro económico-financeiro, e também social, de um «sistema», em que essa outra e triste transferência, a de dezoito mil trabalhadores para a situação de desempregados, acontecida num sector com reputação de solidez (a despeito de sinais negativos que o Deutsche vinha dando desde algum tempo), pode ser noticiada por uma discreta linha no rodapé de um ecrã nesse mesmo momento todo consagrado a um jovem talento futebolístico. E essa discrição naquele exacto momento é quase pedagógica: ali estava o poder de atracção mediática do futebol, concretizado numa das suas vedetas, a esmagar na percepção dos telespectadores uma notícia sem dúvida significativa e porventura tendencialmente alarmante. Em verdade, era a televisão a dar-nos uma involuntária lição acerca da sua capacidade para nos fixar no irrelevante em prejuízo do que em verdade importa. Ou, dizendo-o de modo outro e mais cru: para nos enganar. Ou, simplesmente, adormecer.