«Faz jeito»

Henrique Custódio

O recuo do PS na extinção de algumas taxas moderadoras a partir do próximo ano, tal como foi recentemente aprovado na Assembleia da República, é paradigmático, somando-se a regulares e crescentes desvinculações da realidade factual, por parte do partido do Governo e de quem o chefia.

A explicação foi caricata e contraditória: disseram que a medida devia ser «faseada» e que os 150 milhões de euros arrecadados com as taxas, afinal, dão jeito ao SNS, quando há escassos meses os mesmos responsáveis consideravam a verba «residual» e a valer menos de um por cento da dotação do SNS.

Este último ziguezaguear com as taxas culminou a «guerra das PPP» aberta pelo Governo, ao recusar, a ferro e fogo, inscrever com força de lei o fim desse sorvedouro de dinheiros públicos para a gestão privada de hospitais públicos. Mais uma vez, o recuo foi precedido por uma análise robusta do Governo sobre os prejuízos públicos advindos das PPP…

A «guerra com os professores» foi também escolhida pelo Governo de Costa para se escapar a guerras com outros funcionários públicos (forças policiais, oficiais de Justiça, segurança das cadeias, enfermeiros especialistas, médicos, etc.), todos - tal como os professores – credores do mesmo tempo de serviço congelado por Passos/troika. Respaldado no gasto argumento do «não se pode dar tudo, a todos e ao mesmo tempo» o Governo assestou baterias nos professores e andou mais de um ano «a encanar a perna à rã» nas «negociações» com os sindicatos, onde sempre se recusou a sequer ouvir propostas várias de alargamento no tempo da concretização das reposições.

Adjacentes, mas centrais na política do Governo, estão as intermináveis promessas e garantias «de reposição» de quadros ou serviços, quer nos hospitais ou nas escolas, nos tribunais ou nas repartições. Faltam enfermeiros ou funcionários judiciais, médicos ou especialistas vários, efectivos policiais ou prisionais e o Governo entretém sempre com «a abertura de novos concursos», com a entrada de «novos efectivos», enquanto nada disso surge no terreno. Os problemas agravam-se em lenta agonia e o Governo volta a mostrar mapas de «novas colocações» ou exibe os seus sucessos com os ditames de Bruxelas, a quem reverencia respeitosamente, a quem não falta com todos os milhões do «serviço da dívida» que saem diariamente do País para os cofres «da Europa».

Entretanto, a dívida não pára de aumentar enquanto o Governo teima em não renegociá-la, condenando o País a uma nova «apagada e vil tristeza».

Veja-se o Novo Banco, há uns meses pediu mais 1150 milhões de euros. Soube-se agora que foi para tapar o buraco das dívidas de Berardo. E o Governo deu-os. Entretanto, recua na abolição das taxas moderadoras na Saúde porque essa verba residual… «faz jeito».




Mais artigos de: Opinião

PAN(tominas)

Não é da expressão artística de comunicar por gestos, pensamentos ou perspectivas, que o termo é para aqui chamado, mas sim, desse outro significado que, em qualquer dicionário da língua portuguesa, quem se der ao trabalho de procurar, encontrará. Não se recorrerá, ainda que fosse legítimo fazê-lo, ao que de falso tem a...

Poucochinho

Hoje volto a temas que já aqui tratei. A ofensiva contra os trabalhadores da Administração Pública e o aumento geral de salários e do SMN para 850€. No seu jeito de fazer coro com o que lhe pareça estar na moda, veio o BE contribuir para o peditório do contraste entre um sector privilegiado, com regalias inaceitáveis, e...

Alguns antecedentes

15 de Fevereiro de 1898: o navio de guerra USS Maine explode no porto de Havana. Essa explosão – acidental – serve de pretexto para os EUA desencadearem a guerra contra Espanha, então a potência colonial de Cuba. 31 de Agosto de 1939: o «incidente» de Gleiwitz. Operacionais nazis em uniforme polaco atacam a rádio alemã...

Protecção Civil: discursos e práticas

Passaram dois anos sobre os trágicos incêndios que atingiram Pedrogão Grande e seis concelhos vizinhos, tragédia que viria a repetir-se em Outubro, no centro do País. Como o PCP então afirmou, as razões para o sucedido derivavam das opções de décadas de política de direita protagonizada por PS, PSD e CDS.

Jogos de Guerra

Segundo as notícias, o Mundo poderá ter estado à beira de um ataque norte-americano contra território iraniano. O bombardeamento de vários alvos iranianos esteve iminente. Foi cancelado 10 minutos antes. Trump invocou a estimativa de baixas iranianas para cancelar o ataque. É óbvio que a decisão nada teve que ver com...