«Faz jeito»
O recuo do PS na extinção de algumas taxas moderadoras a partir do próximo ano, tal como foi recentemente aprovado na Assembleia da República, é paradigmático, somando-se a regulares e crescentes desvinculações da realidade factual, por parte do partido do Governo e de quem o chefia.
A explicação foi caricata e contraditória: disseram que a medida devia ser «faseada» e que os 150 milhões de euros arrecadados com as taxas, afinal, dão jeito ao SNS, quando há escassos meses os mesmos responsáveis consideravam a verba «residual» e a valer menos de um por cento da dotação do SNS.
Este último ziguezaguear com as taxas culminou a «guerra das PPP» aberta pelo Governo, ao recusar, a ferro e fogo, inscrever com força de lei o fim desse sorvedouro de dinheiros públicos para a gestão privada de hospitais públicos. Mais uma vez, o recuo foi precedido por uma análise robusta do Governo sobre os prejuízos públicos advindos das PPP…
A «guerra com os professores» foi também escolhida pelo Governo de Costa para se escapar a guerras com outros funcionários públicos (forças policiais, oficiais de Justiça, segurança das cadeias, enfermeiros especialistas, médicos, etc.), todos - tal como os professores – credores do mesmo tempo de serviço congelado por Passos/troika. Respaldado no gasto argumento do «não se pode dar tudo, a todos e ao mesmo tempo» o Governo assestou baterias nos professores e andou mais de um ano «a encanar a perna à rã» nas «negociações» com os sindicatos, onde sempre se recusou a sequer ouvir propostas várias de alargamento no tempo da concretização das reposições.
Adjacentes, mas centrais na política do Governo, estão as intermináveis promessas e garantias «de reposição» de quadros ou serviços, quer nos hospitais ou nas escolas, nos tribunais ou nas repartições. Faltam enfermeiros ou funcionários judiciais, médicos ou especialistas vários, efectivos policiais ou prisionais e o Governo entretém sempre com «a abertura de novos concursos», com a entrada de «novos efectivos», enquanto nada disso surge no terreno. Os problemas agravam-se em lenta agonia e o Governo volta a mostrar mapas de «novas colocações» ou exibe os seus sucessos com os ditames de Bruxelas, a quem reverencia respeitosamente, a quem não falta com todos os milhões do «serviço da dívida» que saem diariamente do País para os cofres «da Europa».
Entretanto, a dívida não pára de aumentar enquanto o Governo teima em não renegociá-la, condenando o País a uma nova «apagada e vil tristeza».
Veja-se o Novo Banco, há uns meses pediu mais 1150 milhões de euros. Soube-se agora que foi para tapar o buraco das dívidas de Berardo. E o Governo deu-os. Entretanto, recua na abolição das taxas moderadoras na Saúde porque essa verba residual… «faz jeito».