Dia D: das justas homenagens às mentiras descaradas

Gustavo Carneiro

Todos os que contribuíram para a derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial merecem ser lembrados como protagonistas da mais decisiva batalha da Humanidade contra a barbárie. Isto é válido para os soviéticos, que praticamente sós durante três anos enfrentaram a poderosa máquina de guerra de Hitler e seus aliados (ao custo de 14 mil vidas diárias), para os resistentes jugoslavos, gregos, chineses, italianos e franceses que, sob ocupação, combateram o invasor, e naturalmente também para os soldados britânicos e norte-americanos que desembarcaram nas praias da Normandia.

Muito se falou, nos últimos tempos, do Dia D, designação pela qual ficou conhecido o 6 de Junho de 1944, data em que os primeiros contingentes militares norte-americanos e britânicos pisaram solo francês para, finalmente, abrirem a tão aguardada segunda frente europeia contra o nazi-fascismo. Os 75 anos deste significativo acontecimento fizeram correr rios de tinta, mas poucas vezes com um mínimo de rigor histórico.

Por cá, o Público (6.6.2019) realçava na primeira página que foi «nas praias da Normandia» que se ganhou a guerra, enquanto o i, na mesma data, garantia que foi no Dia D que «Hitler começou a perder». Estas afirmações, que se inserem numa narrativa global há muito desenvolvida – com expressão na imprensa, na televisão, no cinema, nos currículos escolares –, não têm qualquer sustentação na História, antes na sua revisão.

O seu objectivo é, sobrevalorizando o protagonismo das forças anglo-americanas na derrota do nazi-fascismo, procurar obscurecer o papel decisivo da União Soviética e, em geral, dos comunistas, no desfecho da guerra e nos avanços progressistas que se seguiram. Esta versão dos acontecimentos serviu os propósitos da Guerra Fria como hoje serve a sanha anti-russa com a qual EUA, UE e NATO pretendem justificar a crescente militarização da Europa e o cerco militar a esse país.

Factos contra a manipulação

Não desvalorizando o contributo do Dia D para a derrota dos exércitos nazi-fascistas, tal não pode fazer esquecer a passividade cúmplice com que as potências ocidentais encararam a «marcha» de Hitler para Leste ou a forma tardia como responderam ao apelo da União Soviética para que se abrisse uma segunda frente anti-hitleriana na Europa Ocidental. Aliás, quando se dá o desembarque anglo-americano na Normandia já os soviéticos tinham expulsado os invasores do seu território e iniciavam a libertação da Europa.

Para trás ficavam já as batalhas decisivas que viraram o curso da guerra: Leninegrado (Setembro de 1941-Janeiro de 1944), Moscovo (Outubro de 1941-Fevereiro de 1942), Stalinegrado (Julho de 1942-Fevereiro de 1943),Kursk (Julho a Agosto de 1943). O Exército Vermelho, animando a resistência popular dos países ocupados, apertava o cerco ao nazi-fascismo. Foi ainda na União Soviética que as tropas nazi-fascistas encontraram pela primeira vez resistência digna desse nome e só aí a Blitzkrieg (guerra relâmpago) estacou o passo: às portas de Moscovo, em finais de 1941, sofreram a primeira derrota e quando, em Abril de 1942, terminou a batalha de Moscovo, tinham perdido na União Soviética um milhão e meio de homens, cinco vezes mais do que na invasão e ocupação de 11 países europeus.

O balanço final é ainda mais impressionante: foi na Frente Leste que o nazi-fascismo perdeu 80 por cento dos seus homens e 607 divisões, mais do triplo do ocorrido nas frentes do Norte de África, Itália e Europa Ocidental, juntas. O preço pago pelos povos da União Soviética foi elevadíssimo. Mais de 20 milhões de vidas sacrificadas em nome da Humanidade.




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