Reincidências
Por altura da Páscoa, como aliás é normal, Francisco, o Papa, falou «urbi et orbi», como se diz na fórmula consagrada e multissecular. E, falando, repetiu uma palavra que frequentemente utiliza ao referir-se aos grandes problemas do mundo actual: «ganância», disse ele. Os que não gostam de que Francisco enverede por esses caminhos, que «se meta na política», voltaram decerto a achar que Francisco descarrilou mais uma vez ao intrometer-se numa questão que tem menos a ver com o que acontece nos altares que com o que ocorre nas bolsas financeiras, mas Francisco é assim, um reincidente. Na verdade, não é difícil adivinhar que para Francisco a solidariedade para com todos, mas compreensivelmente sobretudo para com os mais débeis, não é apenas um dever de cristandade, é também uma forma de oração. Para aqueles a quem este provável entendimento incomoda parece não haver outro remédio que não seja esperar que o tempo decorra e, de um dia para o outro, Francisco desapareça. O seu sucessor poderá então abandonar esta tendência de Francisco para denunciar a ganância como pecado maior. E até, quem sabe?, conviver com ela na paz do Senhor.
Lembrando Mateus
É claro que esta reincidente posição pública de Francisco acerca da ganância em geral e decerto de todas as ganâncias em particular aponta para um sentimento de unidade que inclui os que olham Roma sem atender à sua transcendência e tem precedentes em situações de algum modo afins. Uma delas tem lugar de honra na literatura francesa contemporânea e não será inútil recordá-la: durante a ocupação da França pelo exército nazi, Louis Aragon publicou um poema de sabor medievalizante que, apelando à unidade, dizia: «(…) Celui qui croyait au ciel, / celui qui n’y croyait pas, / tous les deux amaient la belle prisioniére des soldats». Era um não muito dissimulado apelo à unidade entre cristãos e não-cristãos perante o invasor. São agora diferentes os tempos, mas não tanto que se tenha tornado obsoleta a conveniência, se não a necessidade, de unidade perante essa especial forma de agressão que é a ganância. Por isso, decerto, Francisco reincide em denunciá-la com uma clareza que desagrada a alguns. Mas Francisco, que é cristão, não esqueceu aquela parte do Evangelho Segundo São Mateus em que se afirma serem bem-aventurados «os que têm fome e sede de Justiça». Com uma consequência óbvia: a de ser um caminho cristão a unidade com os que, não sendo cristãos, têm as mesmas fome e sede. E querem saciá-las.