Odores
Um já forte cheiro ou, se se preferir uma palavra porventura mais elegante, um muito sensível perfume, vem percorrendo o país em geral e os «media» em especial: o cheiro ao ciclo de actos eleitorais que está à porta e que se alongará até Outubro. Esse cheiro caracteriza-se em princípio por medidas que previsivelmente agradarão aos eleitores e que por isso hão-de florir em voto favorável, e talvez não se deva ser excessivamente severo ao avaliarmos esta motivação: uma das boas consequências da vida democrática é esse efeito motivador de medidas favoráveis à vida nunca muito fácil dos cidadãos comuns. Exemplo de uma medida assim é a alteração em baixa do preço dos passes sociais, conseguida pela determinante intervenção do PCP mas que o Governo quer apresentar como sua e que obviamente resulta em aumento, ainda que infelizmente insuficiente, do chamado «rendimento disponível das famílias», formulação esta que entrou na linguagem mediática desde que há já algum tempo, pois os dias passam vertiginosos, se iniciou a devolução aos portugueses dos dinheiros de que haviam sido esbulhados pela coligação Troika/Passos Coelho, fase infeliz da nossa vida colectiva que será conveniente não esquecer para que não ocorra alguma recaída. Porque PSD e CDS não desistem de um regresso, naturalmente, e há infecções que sempre podem voltar.
Uma injecção de toxinas
Dos lances mais ou menos eleitoralistas de que a TV nos vem dando conta, um é particularmente interessante: o inventário feito pela direita dos vínculos de parentesco entre elementos do governo. A questão é que essa jogada revela uma ignorância que, bem examinada, resulta em desabono de quem a suscitou: é que a direita não sabe nem sonha que, sobretudo em tempos negros como os que terminaram em Abril mas de que alguns efeitos ainda hoje se projectam, forma-se no interior de famílias mais atentas à vida colectiva um partilhado espírito de cidadania que resulta em mobilização cívica. Por isso foi frequente a prisão pelo fascismo de diversos elementos de uma família; também por isso há famílias com o que pode designar-se por «tradições de esquerda» que podem resultar em militância activa ou apenas em convicções, não que seja o caso em análise. Quanto à direita, a tradição dominante é outra e não muito bonita, podendo ser definida por uma regra geralmente oculta: desenrasque-se cada qual como lhe aprouver e usando os cotovelos tanto quanto lhe convenha. Essa mundividência não lhe facilita o entendimento de certos fenómenos, e o caso de famílias em que a solidariedade social e o interesse pela actividade política é uma espécie de chamamento comum é um deles. Se daí resultam competências ou posicionamentos adequados é uma outra questão, mas a direita nem vai para uma avaliação desse tipo: basta-lhe injectar no espaço mediático uma porção de toxinas eleitoralistas sem que sequer receie que tresandem. Na esperança sempre renovada de que boa parte dos eleitores tenham escasso olfacto.