O verdadeiro conluio

António Santos

Durante dois longos anos, o Partido Democrata encaminhou toda a oposição a Trump para o decrépito libelo da russofobia: a conjectura de que o presidente dos EUA teria conspirado com «os russos» para vencer as eleições presidenciais de 2016. Em vez de combater a política real de Trump, os liberais escolheram investir contra um fantasma da sua própria imaginação.

Até que, no domingo, o procurador-geral, Bill Barr, divulgou o resumo das conclusões da investigação especial de Robert Mueller e o fantasma desintegrou-se no ar. Sem provas de «conluio» ou «obstrução da justiça», os democratas viram-se desapropriados da sua principal arma política, que repentinamente lhes saltou das mãos para cair como um trunfo no colo de Trump.

Talvez a chefe dos democratas no Congresso, Nancy Pelosi, esperasse que o inquérito de Mueller se pudesse ter arrastado até às próximas eleições presidenciais. Ou talvez, desde o início, o objectivo fosse desviar as atenções da ofensiva de classe que Trump encabeça ao serviço do grande capital. O que é certo é que, graças à estratégia democrata, Trump sai incólume, e sorridente, de dois anos de muita conspiração e poucos factos, que redundaram num deprimente festival absolutório e, possivelmente, num bilhete gratuito para a reeleição em 2020.

É certo que o relatório de Mueller ainda não foi tornado público e não restam dúvidas de que as suas conclusões darão origem a outros processos contra Trump no tribunal do Distrito Sul de Nova Iorque e junto do Departamento da Justiça, mas a tese do «conluio» está, politicamente, morta e enterrada. É até possível que do relatório de Mueller decorram investigações que provem que o presidente corrompeu ou foi corrompido o que, no microclima de Washington, não constituiria uma revelação de especial relevância política. O que fica, para memória futura, é o registo das manifestações em que os Democratas retratavam Trump como um «candidato da Manchúria» munido de foice e martelo e as certezas religiosas com que toda a comunicação social liberal, do Washington Post ao New York Times, passando pela CNN, noticiaram «provas», denúncias e especulações que acabaram por se revelar falsas.

O verdadeiro conluio é aquele que existe entre o Partido Republicano e o Partido Democrata para aumentar a exploração dos trabalhadores, destruir mais rapidamente a natureza e alargar a todo o planeta os tentáculos do imperialismo. As divergências e as contradições entre ambos são tão reais como os interesses materiais que estão na base do seu apoio político: pode não haver consenso sobre qual é a melhor forma de explorar mais o trabalho alheio; podem discordar sobre que sectores devem poder poluir o meio-ambiente; pode ser que não concordem em que país bombardear a seguir.

Mas, para já, é muito mais forte o conluio que os une do que as tácticas que os separam. Tudo o resto são manobras de distracção e fantasmas russos.




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