Os outros
A desastrada sentença de um juiz, reforçada no seu efeito mediático pela proximidade do Dia Internacional da Mulher e das celebrações que a data motiva, trouxeram para alguma actualidade o tema da violência doméstica, e é claro que a combinação dos dois assuntos não escapou à permanente gula da TV sempre ávida desses dois condimentos, a violência e o escândalo. Muito se falou então, e bem, das circunstâncias dramáticas em que está mergulhado o quotidiano de muitas mulheres que vivem nos seus lares, lugares que deviam ser de segurança e da possível felicidade, dias de sofrimento não apenas físico e muitas vezes secreto porque algum pudor impede a sua divulgação mesmo a próximos, testemunhado apenas por filhos que também sofrem com o ambiente de maior ou menor terror imposto por homens cobardes. E não se alegue a falsa razão de eventuais provocações pela parte feminina, em rigor pontualmente possíveis, porque não há pretextos que possam justificar, sequer atenuar, a brutalidade do forte sobre o mais fraco. Por isso se levantou perante o tema um coro de repúdio que infelizmente vai passar rapidamente de moda, digamos assim, a menos que novos crimes se acrescentem à já obviamente excessiva lista de vítimas. À televisão, ainda que não apenas a ela, é devido o reconhecimento e a notícia dessa tristíssima epidemia que parece ser característica da vida portuguesa e uma insuportável tradição que, lembremo-nos, não é de modo nenhum exclusiva das camadas sociais ditas mais baixas.
Como se…
Para lá das notícias agora vindas a público, porém, é necessário não esquecer que além das mulheres, a quem evidentemente é devida toda a solidariedade, há outras vítimas da violência doméstica ou equiparável que não devem ser esquecidas em momento nenhum, muito menos agora que o tema emergiu na comunicação social e desse modo à tona das consciências: são, como se sabe, as crianças regularmente espancadas como forma subprimária de suposta «educação» e são, provavelmente mais esquecidos, os velhos agredidos quer em meio familiar quer em alguns chamados «lares» onde foram depositados. Sabe-se, é certo, que com dramática frequência os velhos são para as famílias, a diversos títulos, um peso que não é fácil suportar, e também que a sua própria condição de idosos talvez cansados («viver sempre também cansa», escreveu o poeta José Gomes Ferreira), decerto enfraquecidos, provavelmente doentes, não facilita a tarefa de cuidadores ou simplesmente de conviventes, mas é indiscutível ser devido respeito, se não afecto, a quem viveu muitos anos sempre mais ou menos difíceis, a quem é sobrevivente talvez por pouco tempo. Ora, acontece que também os velhos agora omitidos são com chocante frequência vítimas da violência doméstica de que agora se falou. Como se não merecessem ser lembrados. Como se já tivessem partido.