«MADE IN USA»
Eram as cinco em ponto da tarde, hora com ressonâncias dramáticas desde que Garcia Lorca a colocou no início de um poema, quando a RTP noticiou que Juan Guaidó, o autonomeado presidente da Venezuela completamente «made in USA», estava a chegar a Caracas. Seguiu-se imediatamente uma ligação à capital venezuelana, e lá o vimos, ao Guaidó, acolhido por uma grande massa de gente e nem toda ela decerto paga a tantos dólares por cabeça, enquanto a locução nos informava de que o regressado tinha sido recebido no aeroporto por diversos embaixadores, entre os quais o embaixador português, presença esta pior que lamentável, tendencialmente vergonhosa. Bem se sabe, é certo, que as circunstâncias concretas da vida internacional tendem a tornar obrigatório não apenas que se façam todas as vontades aos Estados Unidos mas também que alinhemos sob suas ordens nos mais chocantes desfiles, mas neste caso talvez tivesse sido possível mandar ao aeroporto, a receber Guaidó, não o próprio embaixador mas antes um funcionário diplomático subalterno, assim se minorando a dimensão da vassalagem. Pois uma coisa é fidelidade à chamada aliança atlântica e coisa diferente pode e deve ser a execução de quaisquer tarefas, o «todo o serviço» que em tempos designava o conjunto das empregadas domésticas.
Antes um museu
Não é preciso ser um perito em política internacional, ainda que com estatuto de amador, sequer ser um sujeito muito esperto, para entender que a Venezuela e a sua efectiva independência enfrentam uma ameaça terrível: os Estados Unidos de Trump, como aliás asseguradamente os Estados Unidos presididos por qualquer outro que fosse fruto da mesma ou de semelhante cepa, não estão voltados para consentirem no continente americano, sua quinta, um país que desobedeça à regra fundamental da região, que é a de se deixar explorar intensamente, de colocar em mãos norte-americanas as riquezas que a natureza lhe deu, e de ficar muito agradecido. Ainda assim, contudo, os States enfrentam uma dificuldade: a Venezuela tem um povo, e esse povo sabe que com a chamada revolução bolivariana as suas condições de vida melhoraram radicalmente. Será certo que com muitos dólares e intensos bombardeamentos de mentiras é possível obter resultados, mas acontece que, ao que parece, a generalidade dos sul-americanos, embora olhe o grande patrão do Norte com a admiração e a tendencial subserviência que a riqueza sempre induz, não está disponível para obediências sem limites, e nada indicia que o povo da Venezuela esteja à beira de uma rendição ampla e total. Daqui decorre que Guaidó terá um protector forte, mas talvez não que tenha um protector bastante. Pelo que não é disparatado pensar que ao embaixador português em Caracas, decerto competente, ilustre e culto, mais teria valido ir visitar um museu que deslocar-se ao aeroporto local.