Clarificação em curso
Todos recordamos o fenómeno sucedido em Portugal após o 25 de Abril de 1974: ninguém era fascista, e nem mesmo de direita. Dos partidos «institucionais», o que havia mais à direita (o CDS) estava «ao centro». PS, PSD e CDS, os partidos da política de direita, continuam a ser objecto de uma translação: a sua base maioritária é apresentada como no «centro-esquerda» e no «centro-direita.»
Que a política de direita tenha seguido os moldes do que em outros países do mundo se situa bem à direita, nomeadamente em todos os aspectos em que a sua opção de classe é pelos interesses do grande capital nacional e transnacional, tem sido sistematicamente contrabandeado sob esse insólito leque truncado.
Trata-se, evidentemente, de algo altamente conveniente, em particular para forçar a polarização da alternativa eleitoral nos dois parceiros do «bloco central». Tem resultado com grande sucesso. Depois, num país como o nosso, onde o rasto do salazarismo não é apenas o da violência terrorista institucionalizada contra o povo e contra qualquer liberdade durante quase cinco décadas, mas o de um tenebroso cortejo de exploração, pobreza, atraso, obscurantismo e mediocridade, não é fácil à extrema-direita e aos fascistas associar-se a um tal passado. Têm-se esforçado duramente por o branquear, mas a coisa não é fácil. É por isso que é de saudar a clarificação, ainda envergonhada mas visível entre vários colunistas encartados da imprensa diária. Não falarão muito do antecedente histórico, salvo para mencionar «os totalitarismos». Mas estão manifestamente encorajados por cada Salvini, por cada Bolsonaro, por cada Steve Bannon. E começa a passar-lhes pela cabeça entrar à bruta na luta de classes, por exemplo liquidando o direito à greve.