Aquela greve

Correia da Fonseca

Liga-se o televisor, chega o noticiário, e acontecerá talvez que nele estejam incluídas notícias acerca da greve, aquela, a que tende a ser impeditiva da realização de intervenções cirúrgicas em geral e em especial de cirurgias chamadas pediátricas, isto é, a fazer a crianças. Poderá então acontecer talvez que do estômago de alguns telespectadores, ou de outro qualquer lugar do seu corpo que não é de ferro, suba uma espécie de náusea que tenderá a rejeitar globalmente todas as greves de que tem notícia graças à televisão e não só. Na verdade, eles, os cidadãos telespectadores, poderão estar cansados de esperar pelo transporte que não vem, de inventar quem tome conta dos filhos que não tiveram aulas, de verem adiada para longe a consulta com o médico especialista que talvez lhe aplaque uma inquietação. E agora chega a notícia da greve que compromete as cirurgias pediátricas por que decerto espera um bom punhado de crianças, mais os seus angustiados pais, em diversos lugares do País. Entende-se que ela, a notícia, possa desencadear em algumas cabecinhas uma espécie de saudade insalubre do velho tempo em que não havia greves de enfermeiros, pediátricos ou não, porque simplesmente não havia greves nenhumas, todas elas estando proibidas por quem muita outra coisa proibia. («Apetece cantar mas ninguém canta,/ apetece chorar mas ninguém chora,/um fantasma levanta a mão de ferro sobre a nossa hora.»- Torga). É que também a saudade, ou o que com saudade se pareça, pode empurrar-nos para maus caminhos.

Uma arma e o seu uso

Ninguém terá o direito, se é que de direito se trata, de condenar ainda que silenciosamente a greve dos enfermeiros pediátricos ou não: eles é que sabem da força das razões que os movem, e não serão decerto poucos os que terão desejado outro caminho para obtenção dos objectivos que perseguem. É inevitável, porém, que muitos cidadãos sintam ímpetos de qualificar como excessiva e inescrupulosa uma paralisação que, aparentemente, se arrisca a agravar o sofrimento de crianças e/ou a sua angústia (porque os nossos filhos e netos não são de ferro e parafusos inox, angustiam-se como gente que são). Desta situação para o desejo expresso ou não de «acabar com as greves» vai um passo que não pode ser dado. É que o direito à greve não é apenas uma inscrição no texto da Constituição da República: é património individual de cada cidadão trabalhador e património colectivo de uma classe inteira. Recorde-se sempre que a conquista do direito formal à greve teve um alto preço em sangue, suor e lágrimas, ao longo de sucessivas gerações. E a greve é, bem se sabe, uma arma: frequentemente se diz que a greve é a última das armas a ser usada pelos trabalhadores na defesa dos seus direitos. Ora, sabe-se como o uso de armas deve ser feito: com cuidado. Para que desse uso não resultem vítimas inocentes.




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