Parábola de cegos
Mergulhada em contradições, a UE lança-se na vertigem neoliberal, militarista e federalista
Inicia-se hoje a reunião do Conselho Europeu para a qual eram, uma vez mais, anunciadas significativas decisões relativamente à dita 'reforma' da União Económica e Monetária (UEM) – do Euro. No entanto, por muito que o procurem escamotear, esta reunião é efectivamente marcada pelas profundas e crescentes contradições do processo de integração capitalista europeu, pelo exacerbar de divisões e desentendimentos – que não deixam de comportar o perigo de novas e mais gravosas 'fugas em frente'.
É digno de nota que é precisamente naquelas que comummente se designam como as grandes potências da União Europeia – Reino Unido, França, Itália, e mesmo a Alemanha –, que se acumulam e mais se evidenciam factores de instabilidade e de contradição relativamente à denominada 'integração europeia'. Veja-se o processo de saída do Reino Unido da UE, que esta activamente pretende contrariar e reverter, desrespeitando a decisão soberana do povo britânico. Vejam-se em França as crescentes dificuldades de Macron, o aclamado e bafejado arauto do novo salto neoliberal, militarista e federalista da UE, a braços com a expressão do descontentamento e protesto, ainda que por vezes de forma contraditória e até instrumentalizada, face às suas políticas de favorecimento do grande capital, de retrocesso social, de degradação das condições de vida, de ataque a direitos e liberdades. Veja-se a postura renitente da Itália perante os ditames da UE relativamente ao seu orçamento nacional de 2019. Vejam-se os sinais de abrandamento da economia alemã e o desgaste neste país das principais forças políticas que durante décadas foramresponsáveis pelo processo de integração capitalista europeu.
Contudo, mergulhada em contradições, a UE lança-se inexorável na sua vertigem neoliberal, militarista e federalista. A fazer fé no que se anuncia para o Conselho Europeu relativamente à UEM, o que haverá a esperar são mais meios para apoiar os países economicamente mais desenvolvidos (os seus grandes grupos económicos e financeiros), assim como novos e reforçados mecanismos de ingerência e de domínio económico e político dirigidos aos países lançados na dependência por décadas de Políticas comuns, de Mercado Único e de Euro. Sem novidade, e apesar de desentendimentos, são os interesses do directório de potências – agora mais reduzido –, dos (seus) grupos económicos e financeiros que prevalecem.
É também por isso que as eleições para o Parlamento Europeu, que se realizarão já a 26 de Maio, constituem uma importante oportunidade para, através do reforço do PCP e da CDU, afirmar a necessidade e a possibilidade de uma ruptura com o rumo de desigualdade, dependência e abdicação nacional imposto ao País e ao povo português e de abrir caminho a uma alternativa patriótica e de esquerda que afirme a soberania e independência nacional, enfrente, sem hesitações, a submissão ao Euro e às imposições e condicionalismos da União Europeia, e recupere para Portugal os instrumentos necessários para ultrapassar os seus problemas e garantir o seu desenvolvimento soberano – contribuindo assim para a construção de uma Europa de cooperação entre Estados soberanos e iguais em direitos, de progresso social e de paz para com todos os povos do mundo.