Parábola de cegos

Pedro Guerreiro

Mer­gu­lhada em con­tra­di­ções, a UE lança-se na ver­tigem ne­o­li­beral, mi­li­ta­rista e fe­de­ra­lista

Inicia-se hoje a reu­nião do Con­selho Eu­ropeu para a qual eram, uma vez mais, anun­ci­adas sig­ni­fi­ca­tivas de­ci­sões re­la­ti­va­mente à dita 're­forma' da União Eco­nó­mica e Mo­ne­tária (UEM) – do Euro. No en­tanto, por muito que o pro­curem es­ca­mo­tear, esta reu­nião é efec­ti­va­mente mar­cada pelas pro­fundas e cres­centes con­tra­di­ções do pro­cesso de in­te­gração ca­pi­ta­lista eu­ropeu, pelo exa­cerbar de di­vi­sões e de­sen­ten­di­mentos – que não deixam de com­portar o pe­rigo de novas e mais gra­vosas 'fugas em frente'.

É digno de nota que é pre­ci­sa­mente na­quelas que co­mum­mente se de­signam como as grandes po­tên­cias da União Eu­ro­peia – Reino Unido, França, Itália, e mesmo a Ale­manha –, que se acu­mulam e mais se evi­den­ciam fac­tores de ins­ta­bi­li­dade e de con­tra­dição re­la­ti­va­mente à de­no­mi­nada 'in­te­gração eu­ro­peia'. Veja-se o pro­cesso de saída do Reino Unido da UE, que esta ac­ti­va­mente pre­tende con­tra­riar e re­verter, des­res­pei­tando a de­cisão so­be­rana do povo bri­tâ­nico. Vejam-se em França as cres­centes di­fi­cul­dades de Ma­cron, o acla­mado e ba­fe­jado arauto do novo salto ne­o­li­beral, mi­li­ta­rista e fe­de­ra­lista da UE, a braços com a ex­pressão do des­con­ten­ta­mento e pro­testo, ainda que por vezes de forma con­tra­di­tória e até ins­tru­men­ta­li­zada, face às suas po­lí­ticas de fa­vo­re­ci­mento do grande ca­pital, de re­tro­cesso so­cial, de de­gra­dação das con­di­ções de vida, de ataque a di­reitos e li­ber­dades. Veja-se a pos­tura re­ni­tente da Itália pe­rante os di­tames da UE re­la­ti­va­mente ao seu or­ça­mento na­ci­onal de 2019. Vejam-se os si­nais de abran­da­mento da eco­nomia alemã e o des­gaste neste país das prin­ci­pais forças po­lí­ticas que du­rante dé­cadas fo­ram­res­pon­sá­veis pelo pro­cesso de in­te­gração ca­pi­ta­lista eu­ropeu.

Con­tudo, mer­gu­lhada em con­tra­di­ções, a UE lança-se ine­xo­rável na sua ver­tigem ne­o­li­beral, mi­li­ta­rista e fe­de­ra­lista. A fazer fé no que se anuncia para o Con­selho Eu­ropeu re­la­ti­va­mente à UEM, o que ha­verá a es­perar são mais meios para apoiar os países eco­no­mi­ca­mente mais de­sen­vol­vidos (os seus grandes grupos eco­nó­micos e fi­nan­ceiros), assim como novos e re­for­çados me­ca­nismos de in­ge­rência e de do­mínio eco­nó­mico e po­lí­tico di­ri­gidos aos países lan­çados na de­pen­dência por dé­cadas de Po­lí­ticas co­muns, de Mer­cado Único e de Euro. Sem no­vi­dade, e apesar de de­sen­ten­di­mentos, são os in­te­resses do di­rec­tório de po­tên­cias – agora mais re­du­zido –, dos (seus) grupos eco­nó­micos e fi­nan­ceiros que pre­va­lecem.

É também por isso que as elei­ções para o Par­la­mento Eu­ropeu, que se re­a­li­zarão já a 26 de Maio, cons­ti­tuem uma im­por­tante opor­tu­ni­dade para, através do re­forço do PCP e da CDU, afirmar a ne­ces­si­dade e a pos­si­bi­li­dade de uma rup­tura com o rumo de de­si­gual­dade, de­pen­dência e ab­di­cação na­ci­onal im­posto ao País e ao povo por­tu­guês e de abrir ca­minho a uma al­ter­na­tiva pa­trió­tica e de es­querda que afirme a so­be­rania e in­de­pen­dência na­ci­onal, en­frente, sem he­si­ta­ções, a sub­missão ao Euro e às im­po­si­ções e con­di­ci­o­na­lismos da União Eu­ro­peia, e re­cu­pere para Por­tugal os ins­tru­mentos ne­ces­sá­rios para ul­tra­passar os seus pro­blemas e ga­rantir o seu de­sen­vol­vi­mento so­be­rano – con­tri­buindo assim para a cons­trução de uma Eu­ropa de co­o­pe­ração entre Es­tados so­be­ranos e iguais em di­reitos, de pro­gresso so­cial e de paz para com todos os povos do mundo.




Mais artigos de: Opinião

As nossas forças!

Três ou quatro exem­plos re­centes re­velam o quão de­ci­sivas são as forças pró­prias, a or­ga­ni­zação dos tra­ba­lha­dores, no mo­vi­mento sin­dical e no Par­tido, in­de­pen­dente dos in­te­resses do ca­pital, a ca­pa­ci­dade de re­a­li­zação e in­ter­venção.

Dar pasto à dependência

À boleia da «descarbonização» da economia, conceito com costas largas para justificar toda uma fileira de políticas de agravamento fiscal e favorecimento de determinados interesses monopolistas o Governo, pela mão do ministro Matos Fernandes, decretou a redução para metade do número de bovinos em Portugal. Tudo porque a...

À procura «deles»

Anda a comunicação social dominante, concentrada no capital monopolista - o que a CRP exclui -, arduamente à procura «deles», dos «populistas» - quem são, o que têm a dizer, porque é que não chegam, corram que têm ajuda. A «notícia» começa às vezes crítica nos adjectivos, mas acaba na habituação e promoção objectiva....

Barril de pólvora?

Na UE28 118 milhões de pessoas (23,5% da população) estavam em risco de pobreza em 2015. Este risco atinge empregados (12,3% em 2017) e desempregados (32,7%). A precarização crescente das relações de trabalho leva a que o risco de pobreza de trabalhadores entre os 18 e os 24 anos seja de 12,5%, enquanto para os...

Direito à greve

Quando há greve nos transportes públicos, é garantido: as televisões acorrem às estações de comboio ou de autocarro a inquirir os utentes sobre «a incomodidade» da situação, recolhendo testemunhos a desancar nos contratempos que, judiciosamente, as reportagens parecem converter em testemunhos contra a greve. E em vários...