Dar pasto à dependência

Jorge Cordeiro

À bo­leia da «des­car­bo­ni­zação» da eco­nomia, con­ceito com costas largas para jus­ti­ficar toda uma fi­leira de po­lí­ticas de agra­va­mento fiscal e fa­vo­re­ci­mento de de­ter­mi­nados in­te­resses mo­no­po­listas o Go­verno, pela mão do mi­nistro Matos Fer­nandes, de­cretou a re­dução para me­tade do nú­mero de bo­vinos em Por­tugal. Tudo porque a «pe­gada eco­ló­gica» dos bi­chos é um pe­rigo para a hu­ma­ni­dade e porque um quilo de bife emite tanto CO2 como andar 150 Km de carro! Ainda o PAN con­ge­mi­nava um qual­quer pro­jecto de lei para cri­mi­na­lizar o bi­toque de vaca em nome do bem-estar das vacas e de uma dieta her­bí­vora, e aí temos Matos Fer­nandes na li­de­rança da «neu­tra­li­dade car­bó­nica». Ques­tões como o dé­fice agro-ali­mentar de que o País já pa­dece não in­quieta o mi­nistro. Se­gundo ele, coisa de so­menos até porque «a carne vai chegar ao país a preços muito mais com­pe­ti­tivos» de­vido a essa ma­ra­vilha da «maior li­be­ra­li­zação do co­mércio». Para lá ir­res­pon­sável ir­re­le­vância que de­dica à so­be­rania ali­mentar e ao fu­turo de uma im­por­tante fi­leira pro­du­tiva, Matos Fer­nandes que in­voca a sal­vação do pla­neta para tal ob­jec­tivo não re­ponde a uma óbvia questão: se vacas im­por­tadas não têm «pe­gada eco­ló­gica» as­so­ciada, ve­nham de onde vi­erem, ou se sim­ples­mente propõe a proi­bição de con­sumo de carne bo­vina. Não acre­di­tando que pelo prato do mi­nistro só passem le­gu­mi­nosas, a ver­dade é que para muitos a questão está em não poder aceder a um bom bife e, creia sr. Mi­nistro, não pro­pri­a­mente por ra­zões «eco­ló­gicas».




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