Onde o mar é negro
Fiéis aos seus donos formais ou factuais, as operadoras ocidentais de televisão têm vindo a dar-nos da Ucrânia, país situado à beira do Mar Negro, não todas as notícias possíveis mas as que mais lhes agradam ou mais lhes convêm. Como bem se vem entendendo, a política do chamado Ocidente relativamente á Ucrânia é a de ter por esse país um carinho muito especial alimentado pela real ou no mínimo tendencial hostilidade do governo de Kiev à Federação Russa, isto é, à Rússia. A coisa já vem de longe: bastará dizer que foi na Ucrânia que as tropas nazis encontraram apoio interno quando da invasão da URSS em 41 do passado século, tendo mesmo acontecido que militares ucranianos combateram então ao lado dos alemães. Aliás, ocorre que Alemanha e alemães gozam de uma tradicional simpatia na Ucrânia, tratando-se aparentemente de uma simpatia «negra», digamos assim, de tal modo que será na Ucrânia, mais que em qualquer outro território da ex-URSS, que audaciosamente vêm sendo adoptadas práticas anticomunistas e mesmo neonazis. É claro que esta espécie de floração sinistra é apoiada pelo ocidente europeu muitíssimo democrático, nesse apoio se incluindo boa parte do noticiário que acerca da Ucrânia nos é impingido pelos «media». Contra o qual convém estar mobilizado para defesa da nossa capacidade para entender as coisas como elas são e não como no-las querem contar.
Um indesejável trajecto
Este enlevo ocidental pela Ucrânia acentuou-se quando uma zona do Leste ucraniano onde a população é russófona decidiu afastar-se da russofobia do governo de Kiev. De então para cá cresceu a tensão política e mesmo militar (embora esta de fraca intensidade) entre a Rússia e a Ucrânia, para compreensível prazer do Ocidente sempre aplicado a deitar o possível azeite, ou na circunstância talvez petróleo, naquela fogueira. Entretanto, como até os «media» ocidentais registam sem laivos de indignação, o anticomunismo oficioso e oficial de Kiev que mais justificará a designação de criptonazismo tem vindo a crescer, tanto e de tal modo que já chegou ao ponto de assassinar comunistas queimando-os vivos mediante incêndio ateado para esse efeito, episódio a que por cá não foi dado relevo decerto porque queimar comunistas não parece facto de grande escândalo a quem comanda estas coisas da informação. Aqui chegámos, pois, e porque o ponto a que se chegou já basta para que entendamos que o que está em curso convirá decerto que recebamos com reforçada prudência o que a televisão e outros meios ditos de informação nos vêm contando acerca da Ucrânia. O mínimo que será adequado dizer é que, ali, os States e seus satélites europeus estão a construir uma plataforma de hostilidades para com Moscovo. Não é o regresso à Guerra Fria. Mas é, em verdade, um capítulo que bem poderia, ou poderá, fazer parte desse indesejável trajecto.