Tempo de chuviscos

Correia da Fonseca

No passado dia 11, e a julgar pelo que os serviços meteorológicos da televisão nos contaram, a tácita promessa de bom tempo que o dia consagrado a São Martinho transporta falhou generalizadamente em quase todo o território nacional: choveu quer sob a forma de chuva continuada quer sob a forma dos chamados aguaceiros, porventura com prejuízo de eventuais actos comemorativos do centenário do armistício que pôs fim à chamada Primeira Guerra Mundial. Quanto a esta efeméride e à própria guerra a televisão pouco disse, e talvez o devesse ter feito.

O caso é que sectores conservadores não apoiaram a entrada de Portugal na Primeira Guerra, antes pelo contrário, silenciando ou menosprezando as razões que a justificaram ou simplesmente a explicaram, designadamente o objectivo de preservar a posse das colónias africanas cuja partilha entre Grã-Bretanha e Alemanha já estaria em projecto desde anos anteriores. Aliás, e além de outras razões ou sem-razões, quase todas decorrentes designadamente do desejo de hostilizar ainda que muito postumamente a imagem de Afonso Costa, acusado de «ser de esquerda», e do próprio regime republicano instaurado apenas seis anos antes, refira-se que em 1916, ano da entrada de Portugal no conflito, apenas havia duas repúblicas em toda a Europa: uma delas era a república em França, país então enfrentando a invasão alemã, e a outra era a república portuguesa.

Parece claro que esta circunstância nos sugere a presença, entre outros factores, de uma solidariedade ideológica que poderá explicar a hostilidade da direita à intervenção havida.

Senhora discreta

Temos, pois, que em Portugal e neste ano de 2018, o centenário da Paz e da vitória dos aliados foi acompanhado de chuva por todo o País, num óbvio desacato perante a tradição inaugurada há séculos por Martinho e pela sua capa. Porém, se quisermos exagerar um pouco, bem podemos dizer que também na televisão portuguesa choveu um tanto, não sob a forma de água caída dos céus mas sim de notícias acerca de coisas feias e condenáveis.

Foram as trovoadas que parecem ter-se tornado permanentes no reino dos futebóis e foram também outras perturbações que resultam em tempestades locais e vêm ocorrendo com indesejável frequência nos terrenos férteis da banca e seus arredores. Desta vez, o epicentro identificado pelos telenoticiários foi o BPN, com informação das penas aplicadas a alguns dos protagonistas do caso: a alguns, talvez mesmo a todos os que nele tiveram verdadeiro protagonismo, mas a memória diz-nos que não a todos os que nele tiveram algum papel.

E a memória recorda alguém que com o caso BPN, ou com alguma situação dele próxima, teve oportunidade de embolsar uns patacos com sorte ou com sagacidade; nem a televisão se aplicou a avivar memórias. Entende-se: ela, a televisão, é senhora discreta que não gosta de falar de certas coisas.




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