As outras
Intitula-se «3 Mulheres» a minissérie que a RTP1 estreou na passada semana: fala-nos ela de Natália Correia, Vera Lagoa (pseudónimo de Maria Armanda Falcão) e Snu Abecassis, três figuras femininas que há cerca de meio século se destacaram no universo mediático por razões diversas: Natália pela sua obra poética, Vera Lagoa pela sua presença como publicista na imprensa diária, Snu pela pública e de algum modo «escandalosa» ligação a Francisco Sá-Carneiro antes e depois da ascensão a primeiro-ministro do líder do PPD.
As abordagens biográficas que a série lança sobre cada uma delas não comprovam algum consistente relevo de importância nacional, mas a atenção que a televisão agora lhes dispensa justificar-se-á pelo impacto que por razões diversas nesse tempo tiveram na opinião pública. Aliás, a tarefa de reproduzir agora para benefício da TV as figuras físicas das três senhoras quando a memória delas ainda decerto está viva em muitos telespectadores foi uma aposta difícil de que a RTP se saiu tão bem quanto era possível.
Quanto aos acontecimentos narrados, nada de negativo é de assinalar a partir deste primeiro episódio, até pelo contrário: o carácter opressivo e repressivo da ditadura está ali claramente expresso, designadamente quanto à presença criminosa da PIDE, e é expectável que os episódios seguintes confirmem esse caminho.
Não apenas o tempo
Talvez se deva dizer que qualquer das três mulheres de que a minissérie nos fala deu provas de coragem: Natália pelas posições que já então assumia e não apenas no terreno literário, Snu pela pública infracção às regras sociais dominantes no plano social em que se movimentava, Maria Armanda por algum desassombro no trabalho de «cronista social» que quase inaugurara no plano mediático português, mas nenhuma delas foi propriamente uma heroína.
Aliás, não foi decerto coragem o que a RTP mais procurou quando decidiu falar-nos delas. Porém, talvez não seja absurdo ou sequer despropositado que, falando de mulheres e do tempo anterior a 74, a RTP buscasse, sim, sinais de coragem que não lhe seria difícil encontrar e cuja memória sem dúvida lhe cumpre reavivar: é que, não apenas no ano de 67 em que a minissérie se situa mas também muitos anos antes, mulheres portuguesas escolheram um quotidiano de risco e de coragem na execução de tarefas de resistência à multiforme brutalidade fascista.
Foram bem mais que três essas outras mulheres e todas elas decerto mereceriam a atenção da televisão pública, mas a generalidade dos telespectadores não saberá de nenhuma; sobre elas caiu não apenas o tempo mas também o silêncio. Pelo que emerge uma reflexão: estará bem contar-nos Natália, «Vera» e Snu, mas não estará bem que a RTP, ao esquecer as outras, as que não foram mediáticas, dê uma enorme contribuição para que a generalidade dos portugueses também se esqueça delas.