Aznavour

Manuel Pires da Rocha

Símbolo da canção francesa, Aznavour tinha raízes arménias, georgianas e turcas

O cantor que confessava não ter dado pelo tempo passar («Je n’ai pas vu le temps passer») deixou de cantar no Dia Mundial da Música. Incumpriu a promessa de chegar aos 100 anos, mas não se lhe sobressalte a quietude – as canções de Aznavour hão-de saber durar muito além dos 94 anos da sua vida comprida. Não que o depois-da-vida o preocupasse: «a posteridade é para os pintores, os escultores e os arquitectos.»

Quando Charles Aznavour se iniciou nos ofícios de palco, o mundo do espectáculo tinha ainda um lado de artesanato; era no jogo de sedução entre artista e público que se jogava a viabilidade das «carreiras». Só depois viria o tempo voraz das canções-produto da poderosa indústria do «entretenimento», sucedendo-se a uma velocidade vertiginosa nas prateleiras da distracção geral. Nascido para o seu ofício em chão menos adubado, levado no início pela mão de Piaf, de Aznavour ficará sobretudo a lembrança do artesão, as canções irrepetíveis talhadas por um timbre incomparável.

Recebeu dos pais o nome Shakhnour, a que juntaram o apelido Aznavourian que trouxeram do Cáucaso. Ainda no berço, conta Aznavour, uma enfermeira aconselhou Knar, a mãe, a dar ao moço um nome que melhor se pudesse perceber. Ficou Charles, talvez por aproximação fonética, sem dúvida um bom prenúncio para quem faria do som – o da música, o das palavras – o assunto da sua vida.

O miradouro do mundo de Charles era a França, onde nasceu, mas à casa onde cresceu iam dar os caminhos da Diáspora: desde a Arménia dos avós à Geórgia do pai e à Turquia da infância materna. A mesma Turquia em que a União Europeia instalou campos de refugiados sem refúgio, para impedir que os Aznavourians do nosso tempo cheguem à Europa que lhes dinamitou as vidas. Contradições insanáveis de um sistema que acaba de exibir no pátio do Eliseu o espectáculo dos seus equívocos: o corpo inerte do cidadão francês Aznavour desfila envolto na bandeira de França, a mesma que envolve Aznavourian, o da herança arménia.

Num momento em que o país de Maurice Thorez sofre a ameaça dos partidários de «a França para os franceses», Aznavour figura na lista dos «de fora», sendo um daqueles a quem, afinal, a França deve o rosto que lhe conhecemos: operários, camponeses, cientistas, cineastas, desportistas, gente dos ofícios todos e também aqueles que vieram a compor e a cantar a banda sonora de um lugar que sabemos ser a França por soar daquele modo.

Aznavour relacionou-se com a acção política de forma distante, errática por vezes. A sua canção é humanista, de um modo diferente do posicionamento «engajé» de Jean Ferrat ou Colette Magny. Canta sobretudo o amor – «enquanto não se inventar nada mais extraordinário do que o amor, continuarei a escrever canções de amor» – mas também os direitos das mulheres («sou 100% feminista», disse, três dias antes de morrer) e os passos dos «ninguéns» de que falava Galeano. Política, portanto.

La Bohème era a canção preferida de Aznavour, as palavras escritas por Jacques Plante girando na valsa composta por Charles, Montmartre no centro do salão. O Cantor, que escreveu sozinho centenas de canções, considerava, afinal, que a obra mais perfeita é a que se ergue de muitas mãos.




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