Húbris (et Órbis)
Nenhuma competição entre polícias pode justificar práticas ilegais
Eis que, no tempo considerado necessário, os órgãos competentes da Justiça agiram. Agiram, estamos certos, não pela sucessiva excitação do CDS ou pelas putativas descobertas de Rui Rio, que qualquer consulta às vastas páginas de notícias sobre o caso, saídas ao longo dos meses, já tinham dado conta1. Agiram porque foi este o seu tempo, como deve ser. O desenvolvimento do processo na sede própria aclarará o que houver a aclarar, esclarecerá dos fundamentos, responsabilizará quem houver a responsabilizar até porque, atendendo aos envolvidos, não nos passa pela cabeça que a operação húbris se sustente em fragilidades.
Se o roubo foi grave e o achado foi estranho, o que agora nos é colocado pela operação húbris, a confirmar-se, não é menos grave. Em síntese, várias pessoas com grande responsabilidade terão achado que os fins justificavam tudo e que a lei são eles. Tudo em nome do interesse nacional. Não falta nas produções norte-americanas filmes, repetidamente passados na TV, onde a partir de pessoas de uma agência de segurança é desenvolvida uma conspiração, sempre em nome da pureza dos valores dos States que, claro está, acaba sempre abortada.
A propósito do consagrado nos dispositivos constitucionais, somos muitas vezes confrontados com esse tipo de postura, ou seja, com os que lêem a Constituição (CRP) não a partir do que lá está mas a partir daquilo que na sua opinião devia lá estar. Mas uma coisa é exprimirem opinião, outra coisa é agirem não de acordo com aquilo que é, mas de acordo com aquilo que acham que devia ser. Vimos isso a partir de uma comissão governamentalmente indigitada para elaborar um projecto de Conceito Estratégico cujo trabalho tropedeava a CRP.
Para alguns, tudo se resume a uma trica entre a PJ e a PJM e no quadro desse «fogo cruzado» inocentes terão sido atingidos. Veremos se assim é ou não. Agora, há uma coisa que é inquestionável: nenhuma trica ou competição entre que polícias forem pode alguma vez justificar práticas ilegais.
Uma andorinha não faz a primavera
Em resultado do desenvolvimento agora verificado, houve quem viesse dizer que não é este caso envolvendo X militares que põe em causa o relevante papel das Forças Armadas e o profissionalismo dos militares. Subscreve-se, sem qualquer «pedra no sapato», esta consideração.
Mas isso não pode ser sinónimo de se ignorar sinais de natureza e gravidade vária que vão tendo lugar (o caso da recente caixa de munições encontrada numa estrada entre o Laranjeiro e a Cruz de Pau; o caso dos comandos; o caso confuso de promoções em Oficiais Generais; o caso das messes na força aérea; o desvio de cartuchos de munições para venda à sucata; uma oficial farmacêutica que terá desviado materiais, etc) ou, noutro plano, o continuado e mais alargado pedido de saída das fileiras, com pagamento de indemnizações, de oficiais, sargentos e praças, mesmo com poucos anos de serviço, ou casos que correm em tribunal para fazer vingar direitos. Refere-se estes exemplos com o único propósito de evidenciar, mais uma vez, aquilo que nos parece ser um ambiente pouco saudável que tende a expressar-se de muitas formas.
Como de há muito repetimos e alertamos, as diversas transformações operadas ao longo dos anos também se traduziram em distorções no relacionamento da super-estrutura e nos quesitos valorativos para a ela ascender. E não nos centramos, como é fácil de perceber, no Exército, mas nos diversos ramos.
A frontalidade deu lugar aos salamaleques. O princípio da subordinação ao da submissão. O show-off ganha terreno na proporção inversa do aumento das dificuldades sociais, materiais e profissionais. As hossanas às forças nacionais destacadas procuram ofuscar a realidade em que se encontram as Forças Armadas como um todo por responsabilidade de sucessivos governos do PS, PSD e CDS. É aqui que reside a responsabilidade política.
1 http://www.avante.pt/pt/2289//147090/