Futebol?
Inunda-nos a televisão, e deve ser verdade, com a multiplicidade de notícias, mais verdadeiras ou especulativas, sobre o «mundo do futebol», mais propriamente sobre as estruturas que suportam os clubes, nomeadamente as SAD, que a televisão não é senhora para nos mentir sobretudo em temas importantes.
As SAD são, como bem se sabe, a sigla de «sociedade anónima desportiva», e a existência das SAD corresponde afinal à passagem da inicial pertença do futebol ao ingénuo mundo do desporto para o mundo sabidão do comércio, onde aliás todos os dias ou quase acontecem negócios de milhões com lucros chorudíssimos para intermediários, os chamados agentes, que não dão um pontapé na bola mas chegam a condicionar de modo indirecto e legalíssimo os resultados ainda qualificados de desportivos. Como bem se sabe, o futebol não nasceu sendo coisa de comércio, de compras e vendas, do actual tráfico efectivo de seres humanos mobilizados para a condição de gladiadores: chegou ao que é hoje com o tempo, aliás relativamente breve, e sobretudo por efeito de contaminação pelo modelo de sociedade em que floresceu.
O péssimo serviço
A verdade em geral conhecida e em especial sabida pelos telespectadores portugueses é que, mais do que desporto, o que faz transbordar do ecrã dos televisores e a derramar-se no domicílio de cada qual é, em larga medida muito pouco deste, e, muito, seguramente demais, exacerbamento clubístico mais ou menos acompanhado por fenómenos de populismo.
É assim que ao ligarmos o nosso aparelho e tendo quase inevitavelmente desembocado num programa dito desportivo por abuso de linguagem e da nossa paciência, ouvimos falar de golos e de foras-de-jogo, de videoárbritos e de grandes penalidades, mas tornou-se cada vez mais frequente que de questões mais ou menos técnicas as conversas deslizem para temas onde não será difícil surpreender contextos quase policiais. De um modo sumário, bem se pode dizer que dos tais programas desportivos em que o futebol é a vedeta exclusiva se desprende um odor tendencialmente repugnante: visto e ouvido nesses programas, o futebol português cheira mal, bem pior que abordado ao natural.
Ainda há quem se lembre do futebol com uma diferente imagem pública, embora na verdade já contaminado pelos vírus que haveriam de provocar a actual infecção. Esse facto revela o péssimo serviço que a televisão está a prestar ao futebol. E a cada telespectador que sintoniza um dos tais programas. E ao país.