Trumpices
A situação financeira dos EUA é desde há muito insustentável
Não passa dia sem que estalem novas contradições e rivalidades: a reviravolta de Trump no final do G7; o anúncio de novas tarifas dos EUA contra a China; a troca de ‘piropos’ entre franceses e italianos; a crise no seio do governo alemão. A lista é extensa e cresce todos os dias. A directora-geral do FMI, Lagarde, afirma que «cada dia que passa, tornam-se mais negras as nuvens no horizonte» (CNN, 12.6.18). São as expressões políticas da profunda alteração da correlação de forças económica mundial e da crise do capitalismo que – longe de estar domada – se avoluma por detrás dos biombos erguidos pelos bancos centrais para a esconder e fazer de contas que tudo está bem.
A alteração da correlação mundial de forças económicas tende a ser qualitativa. As tarifas sobre 50 mil milhões de dólares de importações chinesas incidem em 1102 produtos «essencialmente focados no plano da China Made in 2025 que a visa tornar dominante nas indústrias de alta tecnologia tais como a robótica, aero-espacial, de maquinaria industrial e automóveis» (Bloomberg, 15.6.18). O Financial Times (17.6.18) titula um artigo: «A China está a ganhar a corrida tecnológica global». Ao seu estilo, Trump acha que os EUA são umas vítimas: «nós temos aquele grande poderio cerebral na Silicon Valley, e a China e outros roubam esses segredos, mas nós vamos proteger esses segredos. Essas são as jóias da Coroa deste país» (Bloomberg, 15.6.18). Mas o Financial Times tem outra versão: os EUA estão a perder o pé porque a sua casta de multimilionários anda demasiado ocupada a embolsar lucros para se darem ao trabalho de investir: «Entre 2015 e 2017 os cinco maiores grupos tecnológicos dos EUA (em especial a Apple e Microsoft) gastaram 228 mil milhões em compras das suas próprias acções [buybacks] e a distribuir dividendos [aos seus accionistas], segundo dados da Bloomberg. No mesmo período, as cinco maiores empresas tecnológicas chinesas gastaram apenas 10,7 mil milhões e canalizaram o resto do seu dinheiro excedentário para investimentos que alargam a sua pegada e influência» (FT, 17.6.18).
Por detrás das diatribes de Trump há lógica. A situação financeira dos EUA é desde há muito insustentável. A sua dívida nacional atinge hoje mais de 21 biliões (12 zeros) de dólares, e mais do que duplicou nos últimos 10 anos. A balança comercial é altamente deficitária. Muita da dívida resulta da gigantesca máquina de guerra e de dominação mundial. Trump quer que as multinacionais dos EUA, que deslocalizaram parte importante da sua produção nas últimas décadas, regressem ao país. E quer que os aliados/vassalos paguem mais pelas aventuras militares que impõem a sua hegemonia. Mas é grotesco ouvir Trump queixar-se de que outros tiram partido da superpotência que, há décadas, dita as regras do jogo mundial e suga os recursos do planeta. Se há razões objectivas para as acções de Trump, há fortes possibilidades de que com a política do ‘salve-se quem puder’, Trump acabe por agravar ainda mais a situação do capitalismo mundial. Os aliados/vassalos europeus (como Merkel e Macron) andam desesperados e falam no afundamento da ‘ordem global’. Mas terão de ser os povos a criar a nova ordem.