Trumpices

Jorge Cadima

A situação financeira dos EUA é desde há muito insustentável

Não passa dia sem que estalem novas contradições e rivalidades: a reviravolta de Trump no final do G7; o anúncio de novas tarifas dos EUA contra a China; a troca de ‘piropos’ entre franceses e italianos; a crise no seio do governo alemão. A lista é extensa e cresce todos os dias. A directora-geral do FMI, Lagarde, afirma que «cada dia que passa, tornam-se mais negras as nuvens no horizonte» (CNN, 12.6.18). São as expressões políticas da profunda alteração da correlação de forças económica mundial e da crise do capitalismo que – longe de estar domada – se avoluma por detrás dos biombos erguidos pelos bancos centrais para a esconder e fazer de contas que tudo está bem.

A alteração da correlação mundial de forças económicas tende a ser qualitativa. As tarifas sobre 50 mil milhões de dólares de importações chinesas incidem em 1102 produtos «essencialmente focados no plano da China Made in 2025 que a visa tornar dominante nas indústrias de alta tecnologia tais como a robótica, aero-espacial, de maquinaria industrial e automóveis» (Bloomberg, 15.6.18). O Financial Times (17.6.18) titula um artigo: «A China está a ganhar a corrida tecnológica global». Ao seu estilo, Trump acha que os EUA são umas vítimas: «nós temos aquele grande poderio cerebral na Silicon Valley, e a China e outros roubam esses segredos, mas nós vamos proteger esses segredos. Essas são as jóias da Coroa deste país» (Bloomberg, 15.6.18). Mas o Financial Times tem outra versão: os EUA estão a perder o pé porque a sua casta de multimilionários anda demasiado ocupada a embolsar lucros para se darem ao trabalho de investir: «Entre 2015 e 2017 os cinco maiores grupos tecnológicos dos EUA (em especial a Apple e Microsoft) gastaram 228 mil milhões em compras das suas próprias acções [buybacks] e a distribuir dividendos [aos seus accionistas], segundo dados da Bloomberg. No mesmo período, as cinco maiores empresas tecnológicas chinesas gastaram apenas 10,7 mil milhões e canalizaram o resto do seu dinheiro excedentário para investimentos que alargam a sua pegada e influência» (FT, 17.6.18).

Por detrás das diatribes de Trump há lógica. A situação financeira dos EUA é desde há muito insustentável. A sua dívida nacional atinge hoje mais de 21 biliões (12 zeros) de dólares, e mais do que duplicou nos últimos 10 anos. A balança comercial é altamente deficitária. Muita da dívida resulta da gigantesca máquina de guerra e de dominação mundial. Trump quer que as multinacionais dos EUA, que deslocalizaram parte importante da sua produção nas últimas décadas, regressem ao país. E quer que os aliados/vassalos paguem mais pelas aventuras militares que impõem a sua hegemonia. Mas é grotesco ouvir Trump queixar-se de que outros tiram partido da superpotência que, há décadas, dita as regras do jogo mundial e suga os recursos do planeta. Se há razões objectivas para as acções de Trump, há fortes possibilidades de que com a política do ‘salve-se quem puder’, Trump acabe por agravar ainda mais a situação do capitalismo mundial. Os aliados/vassalos europeus (como Merkel e Macron) andam desesperados e falam no afundamento da ‘ordem global’. Mas terão de ser os povos a criar a nova ordem.




Mais artigos de: Opinião

Direitos, indivíduo e individualismo

«Nenhum dos chamados direitos do homem vai, portanto, além do homem egoísta, além do homem tal como ele é membro da sociedade civil (da sociedade burguesa), a saber: um indivíduo remetido a si, ao seu interesse privado e ao seu arbítrio privado, e isolado da comunidade».

Campeonatos

Enquanto o campeonato mundial de futebol vai aspergindo entusiasmos na população, os políticos encachecolam-se dos pés ao pescoço para, «junto do povo», vibrarem honras pátrias e alinharem na competição como um «desígnio nacional». Seja o Presidente da República no Terreiro do Paço, aos pulos com o presidente Medina do...

O critério da verdade

A votação realizou-se no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, na passada quinta-feira. O que estava em causa era a recomposição do Parlamento Europeu a partir de Maio de 2019, tendo presente a saída do Reino Unido com os seus 72 mandatos. Ora, o que propunham os deputados do PCP era que os 72 mandatos fossem...

Tudo isto é bola…

Este artigo é sobre futebol. Como nos recusamos contribuir para o lixo televisivo em torno de uma luta de poder dentro de um clube de futebol, iremos focar-nos no campeonato do Mundo. Com a sua realização na Federação Russa não é só a bola e o amor à camisola nacional que dita o tratamento mediático em Portugal. Não são...

Já mete nojo!

Lemos o primeiro-ministro tentar justificar o Acordo PS/PSD/UGT/Patrões sobre as leis laborais com a seguinte frase: «A criação de melhores condições para pais e mães conciliarem vida profissional e familiar é fator chave». E, sinceramente, já mete nojo tanta hipocrisia e tanta demagogia. É que o problema é real e...