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Anabela Fino

Graças ao massacre mediático a que o País tem estado sujeito poucos serão os portugueses que nunca ouviram falar da saga BrunodeCarvalhoSportingclubista, sacrilégio só admissível por ponderosas e comprovadas razões de força maior, tipo estado comatoso ou morte declarada. A importância dada ao tema, que arrolou quase tudo o que havia para arrolar na grande área dos comentadores com livre passe nos órgãos de comunicação social, foi tanta ou tão pouca que se pode dizer estarmos perante um fenómeno de eucaliptalização das notícias: seca (quase) tudo o que está fora do candente assunto.

Se alguém se lembrasse de fazer uma sondagem a perguntar quem é Larry Fink, o que é a BlackRock (PedraNegra) ou do que trata o Pan-European Personal Pension Product (PEPP) é certo e sabido que 99 por cento dos inquiridos (estimativa conservadora) não fariam a mais pálida ideia.

E no entanto... no entanto o PEPP é um fundo privado de pensões que está pronto a ser aprovado porParlamento e Conselho europeus, para entrar em vigor em 2019; aBlackRock é a empresa americana que depois da crise financeira se tornou na maior gestora de fundos a nível mundial – qualquer coisa como seis biliões de dólares –, com importantes participações em 17 mil empresas; e Larry Fink, fundador e CEO da BlackRock, tem tanta influência que governantes e empresas em todo o mundo correm a recebê-lo e a pedir-lhe conselho.

E depois, perguntarão os incautos, que temos nós a ver com isso? Pergunta legítima de quem anda distraído com futebóis... Ora sucede que a BlackRock do senhor Fink propôs à UE, em 2015, a criação de um fundo de pensões pessoais transfronteiriço. Na altura não houve interesse, mas a BlackRock sabe o caminho das pedras (por algum motivo os seus gastos anuais com lobby passaram, desde 2011, de 150 mil para 1,5 milhões de euros) e foi contratando, convencendo, aliciando ex-governantes, comissários, conselheiros e afins nos gabinete de Bruxelas, e o vento mudou. O objectivo do PEPP, segundo estudos da Comissão Europeia, é atingir 240 milhões de cidadãos europeus (metade da população da UE), o que segundo as estimativas faria o mercado interno dos fundos de pensões triplicar de valor, até 2030, dos actuais 700 mil milhões de euros para 2,1 biliões de euros. E quem irá gerir isso? A BlackRock, pois claro, que já hoje tem no activo, dos seis biliões de dólares que gere, um bilião de fundos privados de reformas dos trabalhadores americanos. Já houve um «precalço» de 500 milhões nos fundos de pensões na Califória, mas quem não erra?

Os recorrentes discursos sobre a necessidade de reformar a Segurança Social, e em particular as pensões, não são obviamente alheios ao apetitoso negócio. Aqui e ali, diga-se em abono da verdade, aparecem avisos à navegação, mas são engolidos pela espuma das sagas futebolísticas. O jogo que importa não faz manchetes.

 



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