Uma outra coisa
Os telespectadores haviam sido convocados para assistirem a um provável debate acerca do Maio de 68, no mínimo a uma conversa sobre esse histórico mês. A expectativa, se expectativa chegou a haver, terá ficado frustrada. Não é que no «Prós e Contras» da passada segunda-feira não se tenha falado de 68 e do seu mês de Maio, mas a questão é que dele afinal se falou escassamente e por vezes quase apenas de raspão, tendo embora sido evocados acontecimentos e situações interessantes havidas não apenas em França como por cá, em Portugal, onde o movimento estudantil já em 67 dera prova de insubmissão e coragem. Se o propósito era tomar como tema o Maio de 68, parece óbvia a necessidade de definir as suas raízes e de algum modo o caracterizar pelo menos quanto ao mais importante. Neste caminho, teria alguém, pelo menos alguém, de esclarecer que em Maio de 68 não ocorreu nenhuma revolução nem a intenção de a fazer: que tudo começou com a revolta juvenil de universitários que ambicionavam, sim, derrubar preconceitos e tabus para poderem aceder plenamente às saborosas e apetitosas oportunidades que a sociedade burguesa estaria disposta a conceder aos seus jovens aliás já privilegiados pela frequência universitária, em óbvia diferença com a juventude operária. Não se tratava, pois, de derrubar o poder da burguesia e de o substituir por uma forma de socialismo. Não foi por acaso que a CGT, a mais importante central sindical francesa, não esteve nas primeiras linhas da insurreição: aquilo não nascera como luta operária, sequer como óbvio episódio de luta de classes.
O que faltou dizer
Havia, pois, abundante material para que os convidados no palco ou na plateia explicassem o Maio de 68 e sobre ele discorressem, mas não foi isso que aconteceu. Não é que de todo não se tivessem referido ao ocorrido em França nesse mês, seria absurda essa omissão total, mas dir-se-ia que mais lhes apeteceu a transferência por vezes quase insensível para outros temas, ainda que mais ou menos conexos, pelo que os acontecimentos iniciados em Nanterre e que depois contaminaram outros lugares, que começaram por ser notícia para o mundo e acabaram de algum modo por se tornarem para ele exemplo e estímulo, acabaram trocados por outros um pouco à margem da agenda da noite. Assim, falou-se do nosso país antes e depois de 68, da presença na actualidade mundial e nacional de alguma herança desse peculiar Maio parisiense, mas faltou o que teria sido fundamental: a recusa do estatuto de revolução a uma perturbação social que, embora intensa, não arrancou para transformar radicalmente a sociedade burguesa de França e, por eventual alargamento, de outros lugares do mundo, mas apenas modificar o que poderá designar-se por critérios do seu usufruto. Foi, sem dúvida, importante. Mas revolução é outra coisa e faltou dizê-lo claramente.