A Paz

José Carlos Faria

Aristófanes foi crítico da ordem social da Atenas do século V a. C.

O Teatro da Rainha estreou «A Paz», de Aristófanes, escrita no ano 421 a.C., no contexto de um breve armistício da guerra do Peleponeso entre as cidades-estado de Esparta e Atenas, conflito que afogaria a Grécia em sangue, numa carnificina de três décadas.

Mas «A Paz» é uma comédia. Um dos exemplos mais notáveis da comédia clássica pelo seu mais importante autor, a peça denuncia um conflito político-militar de enorme extensão, ditado pelo desejo de expansão, conquista e domínio e igualmente a decadência em que se enterrava a contraditória democracia ateniense – com meio milhão de habitantes, 300 mil eram escravos sem quaisquer direitos, 160 mil mulheres e crianças sem participação cívica e 40 mil cidadãos livres, entre os quais uma casta de ricos aristocratas gozava de privilégios face aos artesãos, comerciantes e camponeses empobrecidos.

O argumento é o seguinte: o vinhateiro Trigeu, em busca da Paz, decide subir aos céus montado num escaravelho-bosteiro. Chegado ao Olimpo, a morada dos deuses, encontra Hermes, deus do comércio e do roubo, que funciona agora como porteiro celestial, que o informa que as divindades, desgostosas com a insistência bélica dos mortais, e para não escutar as suas súplicas, se afastaram para um ponto mais elevado. Comunica-lhe também estar a Paz prisioneira da Guerra, que a meteu num antro profundo coberto de pedras.

Trigeu, recorrendo a umas carnes, vinho e uma taça de ouro, suborna Hermes e com a ajuda do Coro, representantes das cidades gregas e voz do povo, consegue finalmente libertar a Paz, que surge acompanhada pela Deusa dos Frutos e pela Folgança. Esta é devolvida à Assembleia, de que andava arredia, e Trigeu, tendo afastado a chusma de opositores, vendedores de oráculos e de armas, tornadas ferramentas inúteis, como recompensa, desposa a Deusa dos Frutos, boda que celebra a alegria da festa, o prazer, o amor, a Paz, em honra de Dioniso, deus do vinho e do Teatro, cerimónia fálica do culto da fertilidade e de renovação da Natureza, que os combates impediam.

A comédia, de origem telúrica e impulso vital, oferece-nos a vida como processo social, o real plasmado numa realidade intemporal alegórica e apresenta-se como «uma festa de caos, prelúdio de uma reposição da ordem, saída da desordem, representação do mundo às avessas». A fantasia e a imaginação criam uma ficção que é verdadeira.

Interpelação aos contemporâneos

Aristófanes já anteriormente se tinha pronunciado contra a guerra em «Os Acarnianos» e voltaria a fazê-lo com «Lisístrata», peça em que as mulheres dos guerreiros dão corpo a uma greve de sexo até que os seus bravos maridos abandonem de vez as batalhas. É a condenação dos desastres da guerra de saque, da imbecilidade dos generais vaidosos, do recrutamento forçado, da mentira dos demagogos, do oportunismo bajulador de certos políticos, da corrupção da ética, da miséria do povo.

A crítica política da ordem social de Atenas e do mundo helénico, no século V a. C., produzida pelo riso satírico e licencioso, porque, tal como afirmava Aristóteles, «o homem é o único dos seres vivos que sabe rir».

Aristófanes, pese embora um certo conservadorismo nostálgico, interpela directamente os seus contemporâneos, desde o maquinista de teatro a manobrar o guindaste para as cenas do aparecimento do deus ex maquina, até aos poetas trágicos Ésquilo, Sófocles e Eurípides, passando pelos ataques à referência moral de Sócrates, ao poder exercido pelo ambicioso general Cleon, à orientação geral do Estado, aos negócios e ao carácter do povo e aos seus vícios. Um teatro cívico e popular cuja dimensão satírica o Estado assumia como dever levar à comunidade de espectadores.

Tucídides, historiador que presenciou há 2500 anos estes acontecimentos, legou-nos um testemunho objectivo: «A guerra ensina a violência e põe as paixões da multidão de acordo com a brutalidade dos factos». Trump, o partidário da guerra imperialista, numa espiral de demência, confirma-o no Iraque, na Síria, na Palestina e na Coreia.

 



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