Inédita convergência inter-coreana obriga EUA a manter o diálogo
PENÍNSULA COREANA Os presidentes das coreias do Norte e do Sul reuniram no sábado, 26, e salvaram o encontro entre Kim Jong-un e Donald Trump, que este colocou em perigo com novas ameaças belicistas.
«Kim Jong-un tem intenções sérias sobre a desnuclearização»
LUSA
Numa operação relâmpago com o objectivo de manter o processo em curso de pacificação da península, Kim Jong-un e Moon Jae-in reuniram na zona desmilitarizada do território pela segunda vez no espaço de um mês (o que colocado de uma perspectiva histórica já não seria pouco), mas que é ainda mais importante por traduzir uma inédita convergência inter-coreana.
Nunca antes dois líderes das coreias se tinham encontrado para remover os obstáculos colocados pelo aliado do Sul e arqui-inimigo do Norte, os EUA, às iniciativas de alívio da tensão e de promoção da paz entre os vizinhos em conflito técnico desde 1953. Mas foi justamente isso que aconteceu no passado fim-de-semana.
O presidente sul-coreano, Moon Jae-in, a quem o homólogo da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) pediu que fizesse a gentileza de falar por ambos (outra coisa nunca vista), parece estar tão entusiasmado e empenhado no processo que, em conferência de imprensa no domingo, 27, projecta já uma cimeira trilateral «para que se possa pôr fim à guerra». Isto pressupondo que é bem sucedido o encontro entre Kim Jong-un e Donald Trump, agendado para o próximo dia 12 em Singapura, acrescentou, citado pela Lusa.
A anteceder a declaração de Moon, a agência pública da RPDC noticiou que os dirigentes coreanos estabeleceram, igualmente na reunião de sábado, o compromisso de se encontrarem com frequência e que «Kim Jong Un agradeceu a Moon Jae-in pelos grandes esforços que fez tendo em vista uma cimeira com os EUA».
Já esta segunda-feira, 28, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Sul confirmou que na fronteira coreana decorrem conversações entre representantes de Pyongyang e de Washington visando acertar detalhes sobre a cimeira entre Kim e Trump.
Ora foi justamente este encontro que esteve em perigo desde meados da semana passada, e foi precisamente do seu resgate que trataram Kim e Moon no último sábado. «Kim Jong-un tem intenções sérias sobre a completa desnuclearização da península coreana. As suas dúvidas não são sobre isso, mas sobre as políticas hostis de Washington e sobre se os EUA podem realmente garantir a estabilidade do regime», afirmou o chefe de Estado e de governo da Coreia do Sul na já referida declaração à comunicação social.
Diplomacia da roleta
Trump garantiu entretanto que «estamos a apontar para 12 de Junho em Singapura e isso não mudou». Mas estas foram palavras de reacção à resposta convergente de Seul e Pyongyang face às ameaças norte-americanas de cancelar a cimeira Kim-Trump, e, mais grave, de atacar a Coreia do Norte, pesem embora os passos concretos dados por Pyongyang para manter vivos os canais de diálogo e os bons auspícios para o futuro.
O cancelamento foi anunciado na quinta-feira, 24, por Donald Trump, alegadamente reagindo a uma postura hostil por parte da RPDC. Na verdade, Pyongyang reagiu a declarações, entre outros, do secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, do vice-presidente Mike Pence e do conselheiro de segurança nacional John Bolton, que indicavam que a administração norte-americana mantinha a opção militar caso a Coreia do Norte não renunciasse unilateralmente ao seu arsenal atómico. Chegou a ser aventado que o governo norte-americano não descartava a mesma «solução» aplicada à Líbia e a Muamar Kadafi.
Demonstrando, uma vez mais, a sua queda para a diplomacia da roleta, Donald Trump assegurou mesmo que falou «com o general [James] Mattis [secretário da Defesa dos Estados Unidos] e com os chefes de Estado-Maior conjunto». Aproveitou a oportunidade, além do mais, para fanfarronar que «as nossas Forças Armadas, que são de longe as mais poderosas do mundo e recentemente melhoraram enormemente, estão preparadas se for necessário».
Da parte da direcção norte-coreana, pelo contrário, houve o bom senso de reiterar que «o compromisso de fazer tudo o que podemos para a paz e a estabilidade do mundo e da península. Estamos abertos a oferecer tempo e uma oportunidade aos EUA» para «resolver estes assuntos em qualquer momento e de qualquer maneira», sublinharam.
Mais significativo ainda, também na quinta-feira, 24, a Coreia do Norte procedeu ao desmantelamento do complexo de testes atómicos perante o olhar de cerca de 20 jornalistas da Coreia do Sul, China, Estados Unidos, Rússia e Grã-Bretanha, fazendo saber, de acordo com informações divulgadas pela KCNA, que «o desmantelamento do centro de testes nucleares é uma clara manifestação da aposta pacífica de se juntar às aspirações e esforços internacionais para contribuir positivamente para um mundo livre de armas atómicas».
A mesma fonte citou o Instituto de Armas Nucleares da RPDC, para quem o «desmantelamento completo do local de testes nucleares» foi um sinal claro da «transparência sobre a sua interrupção».