Populismos e hipocrisia
Foi reportado nos media um «debate sobre democracia e jornalismo», animado por dois socialites da ofensiva ideológica imperialista em versão Bilderberg – Balsemão e Portas –, sereníssimos ex-governantes das políticas mais retrógradas impostas ao País e por coincidência «empreendedores de modernidade», que dissertaram sobre a «crise da democracia representativa» face ao «avanço do populismo», «crise paralela» à dos «jornais colonizados pelas redes sociais», um «caos na aparência de democracia», mas as pessoas vão «regressar aos partidos e à democracia representativa».
Estou siderado. Parece impossível como estas palavras percorrem uma linha paralela à verdade, mas nunca se cruzam com ela. Sim, há de facto uma crise mãe, de que os oradores falam mas que fingem não ver, é a crise sistémica do capitalismo, que se reproduz na democracia e nos media, que aliena a política e o jornalismo, que captura os media e os países, que alimenta a guerra, o caos e os populismos, execrados no «debate», mas intrínsecos ao sistema, produtos da sociedade de exploração, da política de direita, do escândalo da concentração e centralização capitalista, que Balsemão e Portas promoveram e visam aprofundar.
É muita hipocrisia esconder, num simulacro de denúncia da crise, a defesa de que a mesma se perpetue no «caos da democracia», como fizeram os dois «empreendedores».
E é muito populista que a denúncia de populismos sem rosto sirva para a mediatização personalista, a promoção da imagem afectiva e o oportunismo político, visando o putativo regresso do PSD e CDS ao governo e/ou um hipotético processo de revisão constitucional de ajuste de contas com Abril. Projectos populistas que importa combater e derrotar.