Comentário

O BCE e a legitimidade democrática

Miguel Viegas

A necessidade de cobrir as instituições europeias com um verniz democrático foi desde sempre uma preocupação dos seus líderes e respectivos vassalos. O Parlamento Europeu representa uma peça chave na construção desta fachada democrática. O caso do BCE é paradigmático. O BCE representa hoje seguramente a instituição com mais poderes dentro da União Europeia, beneficiando de uma independência total face ao poder político consagrada nos tratados. A sua influência nas políticas dos estados membros, e em particular naqueles que caíram nas malhas da armadilha do défice e da dívida, é contudo de tal forma evidente que as instituições da União Europeia foram forçadas a tentar reconhecer e minimizar este «défice democrático» do BCE.

A instrumentalização do Parlamento Europeu para legitimar democraticamente o papel e a intervenção do BCE tem sido uma constante. O Parlamento Europeu tem até, segundo dizem as regras, uma palavra a dizer na nomeação da comissão executiva do BCE. Contudo, a recente substituição de Vítor Constâncio, vice-presidente do BCE, ilustra bem o caráter puramente ornamental do Parlamento Europeu neste processo.

Vamos aos factos. As regras determinam que o Conselho de Ministros das Finanças da UE (ECOFIN) deve fornecer ao Parlamento Europeu uma lista de potenciais candidatos e «ter em consideração» o seu parecer. Para evitar situações caricatas do passado onde esta lista continha apenas um candidato, a Comissão dos Assuntos Económicos e Financeiros do PE (ECON) pediu uma lista com um número expressivo de candidatos incluindo mulheres. Com efeito, existe apenas uma mulher na Comissão Executiva do BCE (composta por seis membros) e dos 19 governadores dos Bancos Centrais apenas um é do sexo feminino. O que se segue é digno de uma verdadeira «ópera-bufa». A lista que foi apresentada continha apenas dois candidatos, ambos do sexo masculino. A comissão ECON recomendou a escolha de Philipe Lane, governador do Banco Central da Irlanda, mas o ECOFIN decidiu ao contrário apesar da pouca preparação demonstrada e dos conflitos de interesse do outro candidato, Luis de Guindos, actual ministro das Finanças espanhol, fervoroso adepto da austeridade e antigo executivo do banco Lehman Brothers. Nada mal para um cargo técnico e politicamente neutro...

O epílogo viria a acontecer em plena sessão plenária onde o voto tem apenas um valor político e não vinculativo. Ainda assim, por precaução Philipe Lane retira a sua candidatura. Procurando salvar a face do PE, o grupo socialista decide condicionar o seu voto à apresentação de garantias do ECOFIN de que para a próxima nomeação terá mais candidatos e mais mulheres. Os coordenadores da ECON reúnem escassas horas antes dos votos. Garantias, nem vê-las. Na hora da verdade, o PE aprova a candidatura de Luis de Guindos por 331 votos a favor, 306 contra e 64 abstenções.

Este episódio não nos surpreende. Integra uma longa lista de atropelos democráticos que são indissociáveis deste projecto de integração capitalista com o qual é necessário romper o quanto antes.




Mais artigos de: Europa

Franceses manifestam-se contra reformas de Macron

SERVIÇOS PÚBLICOS Funcionários públicos, ferroviários, utentes e estudantes confluíram, dia 22, para a Praça da Bastilha, em Paris, para reclamar o aumento dos salários e defender os serviços públicos.

Número dos sem-abrigo aumenta na Europa

HABITAÇÃO Cerca de 11 milhões de famílias na Europa não têm habitação, pernoitando na rua, em albergues ou em casa de alguém, revela um estudo de organizações que trabalham com os sem-abrigo.

Protestos na Catalunha contra escalada da repressão

Milhares de pessoas manifestaram-se, dia 23, em Barcelona e noutras cidades da Catalunha, em protesto contra a perseguição e prisão de dirigentes independentistas. As acções foram convocadas na véspera, pela Assembleia Nacional Catalã e pelos Comités de Defesa...

M5 Estrelas e direita repartem presidências no parlamento

O Movimento 5 Estrelas (M5S) e a coligação de direita dividiram entre si as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado do parlamento italiano, na sequência de um acordo entre as duas formações. O deputado do M5S Roberto Fico, de 43 anos, foi eleito, dia 24,...