A Primavera dos Povos e o marxismo

Gustavo Carneiro

Marx e Engels retiraram lições das revoluções de 1848

Em 1848 a Europa foi varrida por uma série de revoluções, que a História lembra como Primavera dos Povos. De França à Suíça, de Itália à Alemanha, quase todo o continente foi agitado pelo movimento emancipador das massas populares e dos povos oprimidos. Como realça o historiador marxista britânico Eric Hobsbawm (A Era das Revoluções), foram precisamente os trabalhadores pobres das cidades que derrubaram, um a um, os «antigos regimes desde Palermo até às fronteiras da Rússia. Quando a poeira assentou sobre as suas ruínas, os trabalhadores (…) eram vistos de pé sobre elas, exigindo não só pão e emprego, mas também uma nova sociedade e um novo Estado».

A primeira metade do século XIX fora marcada por um impressionante desenvolvimento industrial e tecnológico e por um crescimento populacional e urbano extraordinário. Ao mesmo tempo – é uma vez mais Hobsbawm quem o diz – «a revolução industrial criou o mundo mais feio no qual o homem jamais vivera», o dos subúrbios operários. Neste contexto, as ideias socialistas e o movimento revolucionário internacional ganham expressão; em Fevereiro de 1848, é publicado o Manifesto do Partido Comunista.

Estas contradições, aliadas à rigidez da generalidade dos regimes políticos europeus da reacção pós-napoleónica e à crise económica da segunda metade da década de 1840, fizeram com que a revolução tenha sido esperada nessa altura como poucas vezes até então. Já em 1831 o escritor francês Victor Hugo ouvia o «ronco sonoro da revolução, ainda profundamente encravado nas entranhas da terra, estendendo por baixo de cada reino da Europa as suas galerias subterrâneas a partir do eixo central da mina, que é Paris».

Tal como em 1789, seria uma vez mais da capital francesa que viria o tiro de partida para a onda revolucionária que varreu a Europa: em finais de Fevereiro Luís Filipe é derrubado e instaurada a segunda República francesa.

Os fundadores do socialismo científico acompanharam de perto esta vaga revolucionária, reflectindo sobre ela em obras como As Lutas de Classes em França e 18 de Brumário de Louis Bonaparte, de Marx, e Revolução e Contra-Revolução na Alemanha, de Engels, nas quais se desenvolve as teses fundamentais do marxismo sobre a luta de classes, o Estado e a Revolução.

Lições e ensinamentos

Na primeira dessas obras, Marx desvenda a natureza de classe da revolução de Fevereiro de 1848, em França, realçando que ela pôs fim ao monopólio de poder da aristocracia financeira, que comandava sob o brasão da «monarquia de Julho». Conquistada pelos operários com a ajuda passiva da burguesia, a República de Fevereiro ficou marcada pelas «concessões socialistas» conquistadas por aqueles que tinham constituído a força motriz do derrube da monarquia e da proclamação da República.

Contudo, realça ainda Marx, com a vitória de Fevereiro o proletariado conquistou o terreno para «a luta pela sua emancipação revolucionária, de modo nenhum essa mesma emancipação».

De facto, não seria preciso esperar muito para que proletariado e burguesia se encontrassem em campos opostos e se defrontassem. É em Junho desse ano, após o esmagamento da insurreição operária, que nasce verdadeiramente a república burguesa – opressora, repressiva, desigual. No poder encontra-se, a partir de então, toda a burguesia e já não apenas, como dantes, uma fracção dela. Quanto à república social, surgida como frase e profecia em Fevereiro, «foi afogada no sangue do proletariado de Paris», escreveria Marx mais tarde, no 18 de Brumário.

Em 1848, conclui Marx, o proletariado francês era ainda «incapaz de levar a cabo a sua própria revolução». Mas as lições recolhidas nestas jornadas, desde logo por Marx e Engels, ajudaram a preparar novas e mais poderosas revoluções – apontadas já à destruição do Estado burguês e não apenas ao seu aperfeiçoamento. A Comuna de Paris de 1871 seria a primeira experiência de ditadura do proletariado.

 



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