Ela e a fábula
Foi, em Lamego, o congresso do CDS, o partido que Paulo Portas como que deixou em testamento a Assunção Cristas, a menina que predestinadamente nasceu em Luanda a 28 de Setembro de 74 enquanto António Spínola convocava em Lisboa uma afinal frustrada «maioria silenciosa». E a menina, agora uma senhora com idade já bastante para grandes cometimentos, tomou a herança muito a sério. Quem já não o soubesse ficou disso inteirado sobretudo graças à televisão, cujos canais ditos informativos cobriram intensamente o evento, e os telespectadores interessados ficaram esclarecidos: a drª. Assunção quer mesmo ser a líder de toda a direita portuguesa, intenção que muito provavelmente já estaria na dotada cabecinha do dr. Portas e terá seguido integrada na herança transmitida. Essa mesma intenção foi assumida com clareza mesmo na cara do convidado dr. Rui Rio, que muito provavelmente alimenta o projecto talvez ilusório, talvez não, de ser o chefe de toda a direita nacional um pouco à imagem e semelhança da prática exercida pelo politicamente falecido dr. Passos Coelho, que a área do ensino para onde se transferiu lá o tenha em bom descanso.
Tabuleta mal pintada
Acontece, porém, que quanto ocorreu no congresso da drª.Cristas terá feito lembrar o diagnóstico sintético que não há muito tempo foi feito por Jerónimo de Sousa perante as muitas e veementes intervenções da decerto excelente senhora na AR. Disse então o Secretário-geral do PCP que a senhora doutora lhe lembrava a fábula da rã que queria ser boi, estória educativa que vem das lonjuras do século sexto A.C. até aos nossos dias com escala por La Fontaine. A fábula conta-nos a triste e breve aventura de uma rãzita que, tomada de inveja perante a diferença de corpulências entre si própria e um boi que dela se avizinhara, teimou que conseguiria atingir o mesmo tamanho inspirando ar bastante para que inchasse. O resultado narrado por Esopo foi que a pobrezinha estoirou, desenlace trágico que nem de longe Jerónimo deseja à drª. Assunção em sentido literal, é óbvio, mas que surge na fábula como forma última de inevitável falhanço. A questão é que dados fundamentais se opõem ao propósito da doutora, entre todas eles avultando o facto de o CDS ser desde sempre o partido mais próximo do regime derrubado em Abril e albergue dos que por vocação pertenceriam à então falecida «União Nacional». Acresce que sua proclamada pertença ideológica à chamada «democracia cristã» é como uma tabuleta mal pintada e permanentemente esquecida, o que aliás é um desperdício tático em país em princípio generalizadamente cristianizado. Restará à drª. Cristas a possibilidade de ir inchando quanto possa e de desejar ser boi, com perdão da metáfora não excessivamente elegante, até à verificação da impossibilidade final. Porque a realidade é mais forte do que os sonhos de todas as rãs.