O exemplo de Catarina Eufémia
O que eu quero é pão para matar a fome aos meus filhos
Catarina Eufémia nasceu em 1928 (faz agora 90 anos), na aldeia de Baleizão, concelho de Beja, no seio de uma família de camponeses pobres, em zonas de latifúndio. Ainda criança e perante a morte do pai, vê-se forçada a trocar as brincadeiras com as bonecas de trapos, farinha e papel, pelo duro trabalho de sol a sol na propriedade do agrário Fernando Nunes em troca de uma magra jorna.
Os anos 50 do século XX foram, nesta região, tempos de grandes fomes e heróicas lutas. O proletariado agrícola alentejano fervia de revolta face às aviltantes condições de trabalho e à fome. Em 1954, a luta do campesinato alentejano ganha novas e redobradas energias com forte participação das mulheres, como nos dá conta o jornal «O Camponês», publicado em Março desse ano: «A participação das mulheres camponesas na luta por melhores jornas é um grande passo em frente no reforçamento da unidade. Em muitos lados, elas vão à Praça de Jornas, fazem parte de Comissões com os homens e constituem também as suas próprias Comissões».
Ingressa no PCP com 24 anos. Pouco depois, faz parte do Comité Local de Baleizão e lidera a organização das mulheres da sua terra.
Casada, já com três filhos e grávida do quarto, Catarina destaca-se na luta de resistência à exploração e à fome.
A 15 de Maio de 1954, perante a recusa sistemática do agrário Fernando Nunes em pagar a jorna pretendida para a ceifa, os camponeses de Baleizão decidem entrar em greve. Ninguém vai trabalhar.
O conflito teve dramática evolução quando o agrário, tentando quebrar a unidade dos grevistas, manda buscar um rancho a Penedo Gordo. A notícia corre célere entre as gentes de Baleizão, que convencem os de Penedo Gordo das razões da sua luta. Estes decidem também não trabalhar por salários de miséria.
Chamada ao local, a GNR cerca o rancho do Penedo Gordo e obriga-o a trabalhar sob a ameaça das armas pela jorna decidida pelo agrário. O povo de Baleizão não desarma e volta à herdade para os demover. Uma barreira de guardas tenta impedir-lhes a marcha mas a sua determinação obriga os guardas a deixar passar um grupo de 15 mulheres lideradas por Catarina Eufémia, que avança decidida, grávida e com um filho de 8 meses, ao colo.
É então que o assassino tenente Carrajola lhe salta ao caminho e lhe aponta uma pistola-metralhadora, perguntando: «O que queres, bruta?»
«O que eu quero é pão para matar a fome aos meus filhos! Quero paz! Tenho fome.»
A resposta soou em três tiros disparados à queima-roupa. Mortalmente ferida, Catarina Eufémia tomba, vítima da besta fascista.
«Catarina morreu como deve saber morrer um membro do Partido. Morreu à frente das massas, encabeçando a luta de classe, defendendo os interesses vitais dos trabalhadores». Assim evocou Álvaro Cunhal o heróico exemplo de Catarina Eufémia na homenagem que o PCP lhe prestou em Baleizão, a 19 de Maio de 1974.
Com a Revolução de Abril, o fascismo foi derrubado, a liberdade conquistada, a terra entregue a quem a trabalha. Entretanto, anos e anos de política de direita destruíram a Reforma Agrária e entregaram de novo a terra aos agrários.
Mas a luta não parou. O exemplo de Catarina continua a influenciar a acção do PCP, dos trabalhadores e do povo na luta por uma sociedade livre da exploração do homem pelo homem, pela democracia avançada vinculada aos valores de Abril, pelo socialismo e o comunismo, por uma «terra sem amos» pela qual Catarina Eufémia entregou a vida.