País honrado

Correia da Fonseca

Uma vez mais, a televisão falou-nos dos milhares de trabalhadores ilegais que no Alentejo vão sobrevivendo em condições que no mínimo serão designáveis por difíceis mas que muitas vezes o rigor talvez obrigasse a qualificar de infames. Não foi a primeira vez que um ou outro canal se lembrou (e nos lembrou) dessa gente, mas nunca com o vagar e alguma minúcia que o assunto requer. Talvez a sua gravidade possa ser expressa por uma frase simples: país em que milhares ou sequer dezenas de homens ou de mulheres são submetidos a trabalho duro sem remunerações a condizer nem condições de alojamento minimamente dignas, duvidosamente pode ser qualificado como país honrado. Há mais de quarenta anos, Portugal pôs fim à sua situação de país colonizador e, em consequência, à tradicional prática de violências várias que em maior ou menor grau sempre acompanhou o domínio colonialista de potências europeias supostamente civilizadas sobre os povos colonizados. Seria muito pior que lamentável, seria inaceitável, que fosse agora reproduzida em território nacional, ainda que em escala e intensidades muito menores e num limitado espaço territorial, algumas características do trabalho de facto escravo que o país impôs noutros continentes.

À espera do que falta

Que a televisão tenha referido o facto, isto é, o crime, foi sem dúvida um gesto muito positivo. Parece, porém, ser indispensável retirar-lhe a caracterização de gesto incompleto: uma vez revelada a prática vergonhosa, impõe-se não apenas extirpá-la mas também identificar os que a cometem e não apenas para pôr-lhe fim: também para que o país conheça os responsáveis, como é seu direito e aliás também sua eventual conveniência. É provável que, quando denunciados, eles possam vir alegar não apenas penúria de trabalhadores nacionais recrutáveis, o que é duvidoso mas não de todo impossível em consequência do movimento emigratório que continua a registar-se no Alentejo, mas também que só com mão-de-obra a trabalhar nestas condições de facto indignas as suas explorações agrícolas são sustentáveis. É claro que o argumento nunca seria aceitável, nenhum negócio pode legitimamente construir-se sobre os destroços da dignidade humana (o que infelizmente muitas vezes escapa a gestores aplaudidos), e neste caso é grave que a situação descrita pela televisão prossiga sem que nos cheguem, por essa via ou por quaisquer outras, informação de terem sido tomadas medidas para o fim imediato do escândalo e para a restituição dos trabalhadores sobreexplorados a condições de vida e de trabalho dignas. Não é crível, é claro, que os poderes públicos não vejam televisão, eles que por vezes lhe são tão sensíveis, tal como também não é admissível que não saibam por outras e adequadas vias o que acontece no Alentejo com trabalhadores imigrantes em situação legal ou não, alguns ou muitos talvez traficados em circunstâncias infames. Por isso a informação que a TV agora nos prestou ficou incompleta. E em consequência ficarão muitos cidadãos telespectadores a aguardarem com alguma natural impaciência o resto da tristíssima notícia.




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