«O povo é que decidirá sobre a candidatura de Lula»

Hugo Janeiro
BRASIL Wadih Damous é deputado federal do Partido dos Trabalhadores (PT). Em Lisboa, no dia 11, participou numa sessão sobre direito e democracia promovida pelo núcleo local do PT, tema da conversa com o Avante!.

Lula da Silva é um «alvo a abater»

No Brasil, desde o início deste mês, têm ocorrido iniciativas (marchas e outras acções com expressão de rua, sessões de esclarecimento, lançamento de brochuras, constituição de comités populares, etc.) de denúncia da manipulação da Justiça e de exigência de democracia. No próximo dia 24, quando Lula da Silva comparecer em tribunal, em Porto Alegre (Rio Grande do Sul), será acompanhado por milhares de brasileiros que se estão a mobilizar sob a palavra de ordem «eleições sem Lula são golpe».

A convocação do julgamento do recurso apresentado pela defesa de Lula da Silva para o próximo dia 24 de Janeiro constitui um elemento novo em todo o processo?

Esse processo tem um objectivo claramente político. Não se trata de investigar se o presidente Lula praticou corrupção ou não, mas de retirá-lo do combate político. A acusação contra Lula da Silva é uma articulação mediático-judicial que atenta contra o estado de direito, transformando um procedimento penal numa campanha de perseguição política e mediática. A comprová-lo está de facto a antecipação da data do próximo julgamento, obedecendo a um tempo político e não ao curso normal do processo.

Essa agenda forçada, politicamente motivada de que fala, é parte da resposta à campanha e apoio que Lula da Silva tem recebido no périplo pré-eleitoral pelo Brasil?

Todas as pesquisas indicam que se Lula da Silva concorrer à presidência do Brasil, ganha logo à primeira volta. Isso incomoda a elite brasileira que colhe os resultados do golpe de Estado realizado para acabar com o legado dos seus governos. O golpe de Estado que destituiu a presidente Dilma Rousseff obedeceu à estratégia do capital financeiro. Governos como os de Lula da Silva e, depois, de Dilma Rousseff, são disfuncionais na matriz neoliberal.

Se esta campanha de desmoralização e descredibilização de Lula da Silva já tivesse produzido o efeito pretendido, seguramente não o continuariam a perseguir com esta intensidade. Como se apresentou como candidato reafirmando um programa de mudanças face ao passado e de recuperação dos direitos sociais e laborais que estão a ser retirados pelo governo golpista, entre outros aspectos, e como tal está a mobilizar o povo, Lula da Silva é um «alvo a abater».

Referiu o programa de «mudanças e recuperação de direitos» protagonizado por Lula da Silva. Quando em Setembro do ano passado entrevistámos a presidente do PT, Gleisi Hoffmann revelou-nos que estavam a trabalhar num programa que seria seguramente mais radical do que os anteriores apresentados pelo partido. Já nos pode avançar alguns eixos ou propostas fundamentais?

As caravanas que o presidente Lula tem feito pelo país, os depoimentos que recolhe nas zonas mais pobres do Brasil, permitem-nos apresentar um programa assente na realidade concreta brasileira. Quando a senadora Gleisi Hoffmann diz que será um programa mais radical do que aquele que levou Lula da Silva à presidência do Brasil, está a dizer que, por este ou aquele motivo – relação de forças no contexto de então, por exemplo –, houve propostas que na altura não tiveram expressão programática, mas que hoje, considerando a experiência, ganharam redobrado sentido e pertinência.

O caso mais evidente é a necessidade da regulação da comunicação social, particularmente visando os grandes meios, os quais se assumiram uma postura golpista. O presidente Lula já assumiu publicamente o compromisso de uma reforma neste âmbito.

Não é, como a direita anda a dizer, uma proposta para o regresso da censura. Trata-se efectivamente de impedir abusos e ilegalidades, combater a calúnia e defender a liberdade e o rigor informativo.

Por outro lado, o presidente Lula da Silva também assumiu a possibilidade de colocar a referendo a reversão do pacote de retrocessos em matéria de legislação laboral e social, de privatizações de empresas e entrega de recursos estratégicos.

A prioridade agora, porém, é tudo fazer para que a candidatura de Lula da Silva não seja impedida por um punhado de fascistas que manipulam o sistema judicial. O povo brasileiro é que decidirá sobre a candidatura de Lula da Silva.




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